(Será
que é amor?)
Nunca
uma semana passou tão lentamente como aquela. Todos os dias Anna se perguntava
como poderia chegar até Gabriel. Como começaria uma conversa com ele, se eles
mal se conheciam? Afinal, nunca foram apresentados, apenas estiveram no mesmo
lugar por algumas vezes, e na maioria delas, ele acompanhado.
Anna
era do tipo decidida, que não ficava esperando as coisas acontecerem, fazia
acontecer. Mas naquela situação particular o que deveria fazer? Não sabia. Se ao
menos estivessem por algum tempo no mesmo lugar, puxar conversa seria uma
possibilidade. Pensou muito durante aqueles dias, mas, por incrível que
parecesse, nenhuma ideia surgia.
O
sábado chegou, e naquele dia ela, Julia e Mariane eram as responsáveis por
preparar a reunião do grupo de jovens. Deveriam escolher o evangelho a ser lido
e preparar uma oração para o encerramento, por isso, reuniram-se à tarde em sua
casa e preparam tudo sem demora ou dificuldade. Chegou a hora de por a conversa
em dia.
Não
mais aguentando a agonia, Anna revelou às amigas o que vinha sentindo, e
sofrendo, há dias. Confessara que estava verdadeiramente arrebatada por uma
paixão que não sabia explicar, sequer sabia dizer como começara, afinal, nem
ela mesma acreditava que houvesse se apaixonado tão perdidamente por alguém em
um breve olhar, naquela manhã, quando iam comprar as coisas para a festa do
pijama. O que sabia era que sentia algo por Gabriel e nunca sentira antes.
Seria amor?
Mariane
revelou que conhecia Gabriel há algum tempo, tinham estudado juntos no ensino
fundamental, mas nunca tivera grande amizade com o rapaz, pois este sempre fora
bastante sério e reservado, pouco falava de si e tinha menos amigos que
qualquer pessoa que Mariane conhecesse, dentre os quais, jovens bem mais velhos
que elas. Contudo acrescentou que ele sempre fora muito educado e gentil, além
de ser destaque na escola por conta de suas notas. Mas depois trocaram de
escola e ela pouco o via, a não ser nas missas.
Anna
ficou bastante surpresa com essa revelação, pois frequentavam a mesma igreja e
ela estava certa de não tê-lo visto antes. Como seria possível ter estado
tantas vezes no mesmo lugar que Gabriel sem nunca o ter observado e, de
repente, não conseguir passar um único dia sem pensar nele. “O amor tem razões
que a própria razão desconhece”, era o pensamento de Anna diante daquele fato
tão recente e inusitado.
Estava
claro que deveriam fazer algo para que Anna e Gabriel pudesse ficar juntos por
algum tempo e, ao menos, conversarem, mas o quê? O garoto era tão reservado que
pouco o viam, a não ser nos últimos tempos, mas saber aonde ele costumava ir nos
finais de semana era uma missão para lá de difícil.
-Quase
impossível! Disse, finalmente, Julia, depois de ouvir tudo o que amiga disse
sem qualquer comentário. – Eu sei onde o pai dele trabalha, e sei que ele
costuma acompanhar o pai algumas vezes. Mas não dá pra fazer plantão lá, né?!
-
Não. Claro que não. Disse Anna. Mas vou prestar mais atenção durante a missa,
quem sabe sento perto dele...
-
Anna, você nunca se senta. Está sempre ajudando em alguma coisa... Lembrou
Julia.
A
conversa ainda durou longos minutos, até que chegou a hora de cada uma voltar para
sua casa e preparar-se para o encontro que planejaram e do qual seriam as responsáveis
naquela noite.
O
encontro começou, como sempre, com a leitura do Evangelho e Anna fora a
responsável pela missão. Todos ficavam em pé, formando um círculo diante do
altar, e Anna estava de frente para cruz, de costas para a porta principal, a única
que permanecia aberta durante os encontros. Mal acabara a leitura e percebeu
que alguém se aproximava, ocupando um lugar ao seu lado. Mal podia acreditar em
seus olhos ao ver Gabriel ali, ao seu lado. Como era possível?
Chegou
sozinho e em silêncio, apenas ocupou um lugar e lá permaneceu. Anna sentia seu coração
pulsar intensamente. Uma espécie de calafrio percorria seu corpo. Sentiu-se até
culpada por tudo aquilo no meio de uma reunião religiosa, mas preferiu
acreditar que seria uma providência divina, e como era divina... O perfume de
Gabriel inebriava, Anna sentia-se até atordoada com aquela fragrância única e
indescritível, chegara a fechar os olhos para sentir melhor sem que qualquer
outra coisa atrapalhasse aquele prazer. Parecia sentir o calor que emanava do corpo de Gabriel.
O
que se seguiu naquele encontro, Anna não saberia dizer, pois ficou totalmente
envolvida por aquele ser que estava ao seu lado, tão perto e tão longe... Não
imaginava vê-lo tão cedo. Gabriel estava lindo. Vestia um jeans muito claro com
uma camisa de listras finas, com as mangas enroladas até pouco abaixo do
cotovelo, e um cinto da mesma cor do sapato, ambos marrons escuros. Era,
certamente, a visão de um deus grego, perfeitamente entalhado em Carrara. Por sorte,
estavam todos tão concentrados nos comentários que Anna e as amigas prepararam
carinhosamente naquela tarde, que ninguém percebeu o estado avassalado de Anna,
exceto, claro, a amiga Julia, que estava na posição oposta à Anna e, sabendo de
sua paixão, não pode deixar de observá-la após a chegada de seu suposto
príncipe e, percebendo o que se passava, despertou Anna chamando-a pelo nome, perguntando-lhe
se queria fazer algum outro comentário.
-
Não! Acho que já foi dito tudo. Foi a resposta decidida de Anna, como se
estivesse totalmente inteirado do assunto.
-
Sendo assim, podemos passar agora para a nossa oração final. Disse Mariane, que
ficara responsável por conduzir aquele momento.
Foi,
então, que Anna percebeu que já faziam ao menos vinte minutos que ela estava
fora de si, embebecida pela presença de Gabriel. Mas antes que pudessem iniciar
qualquer oração, de forma espontânea e inesperada, Julia disse alto, cortando a
vós da Mariane.
-
Virem-se de frente para a pessoa que está ao seu lado e peguem nas mãos.
Naquela
hora, o coração de Anna parou de bater, a boca secou e começou a sentir as mãos
suarem frio. Não fora aquilo que prepararam durante a tarde. Não compreendia o
que estava acontecendo e, para piorar a situação, quando olhou à sua direita,
encontrou as costas de Paula, uma amiga. Não lhe restara, portanto,
alternativa. Virou-se para a esquerda e deparou-se com duas mãos estendidas
para si como se em uma verdadeira oferta. Segurou nas mãos de Gabriel e teve a sensação
de que o chão saíra debaixo de seus pés. Eram as mãos mais quentes e suaves que
já segurara. Fez o possível para disfarçar sua alegria àquele toque.
Mariane
conduziu a oração como o planejado, o problema era que Anna já sabia como
terminaria, só não esperava que estivesse frente a frente com Gabriel. Desejou que
aquele momento durasse para sempre, mas ao mesmo tempo, queria que acabasse
logo, porque estava sendo muito difícil enfrentar todos aqueles sentimentos
ali, dentro da igreja, não sabia se estava sendo abençoada ou se estava cometendo
um grande pecado. E assim terminou a oração:
-
Olhe para o amigo que está em sua frente e diga: eu te amo porque você é um
filho de Deus.
Muitas
foram as vozes ouvidas ao mesmo tempo, menos a de Anna, que não foi capaz de
olhar para Gabriel, tampouco dizer aquelas simples palavras que ajudara a
pensar naquela mesma tarde. Teve a impressão de ouvi-lo dizer algo, mas faltou
coragem para olhar em seus lábios e entender o que dizia. O encontro acabou com
o famoso abraço da paz. O melhor abraço que sentira em sua vida. Aqueles braços
fortes em torno de si, os corpos muito próximos, podendo sentir o calor de
Gabriel. Seu coração disparado como um cavalo vencendo uma corrida. Soltaram-se
e foram cumprimentar os demais.
Ele
estava ali, era a oportunidade que Anna precisava para conversar e saber um
pouco mais daquele lindo jovem que vinha fazendo parte de seus sonhos há meses,
mas ela havia prometido ao pai que iria acompanhar a família em uma visita a um
parente que estava de passagem pela cidade e se hospedava na casa de sua avó. Por
essa razão, saiu rapidamente da igreja, pois os pais já a esperavam do lado de
fora. Despediu-se apenas de Julia, que não acreditava no que a amiga estava
fazendo.
Nossa, está ficando muito bom
ResponderExcluir