(O encontro)
Aquela
semana não foi fácil. O domingo foi pra lá de difícil. Anna não conseguia
entender o que acontecera na véspera, estava tão perto de falar com Gabriel,
mas tinha de sair com os pais. Não parava de se perguntar por que não disse ao
pai que tinha um compromisso inadiável, inventasse uma desculpa, uma amiga
precisando de ajuda. Mas nada fizera. Fora ao passeio de família como
combinado, deixando Gabriel para trás... Quis ir ao encontro de Julia de
descobrir se foram a algum lugar, se Gabriel foi, se alguém conversou com ele,
mas sabia que a amiga estaria fora naquele dia. Não havia nada que pudesse
fazer. Pensou em ligar para a casa dele, àquela altura já conseguira o número,
mas ia dizer o quê? Que era uma louca apaixonada por ele e que gostaria de
encontrá-lo? Não podia, isso não combinava com ela e ainda correria o risco de
ouvir, por telefone, um grande fora. Melhor não fazer nada, por enquanto.
Era
semana de provas, que sorte. Preocupou-se tanto em preparar-se para as
avaliações finais que não sobrou folga para lembrar o que fizera no sábado. E,
assim, chegou novo final de semana. No sábado, depois do encontro, haveria uma
festa de aniversário. Uma integrante mais nova do grupo, com quem Anna nem
tinha muita afinidade, não que não gostasse da menina, mas pouco conversava com
ela, procurava apenas ser acolhedora. Contudo, como o convite era para o grupo
todo, Anna decidiu que iria à festa. Pensava consigo mesma se Gabriel
apareceria, afinal, ele estava presente no último encontro quando Roberta
fizera o convite.
Naquele
sábado, cuidou de si como há muito tempo não fazia. Passou a tarde cuidando dos
cabelos e das unhas. Não havia dito nada à sua irmã, Marina, que, apensar de
ser apenas dois anos mais nova que Anna, era bastante diferente dela. Dificilmente
saiam juntas, e não tinham amigos em comum. Marina tinha um namorado e, por
essa razão, nem ao grupo ia mais. Mas, em casa, eram amigas, ajudavam-se sempre
que uma precisasse da outra, havia uma certa conexão inexplicável entre elas e,
claro, Marina percebeu naquele dia que havia algo diferente com sua irmã mais
velha. Resolveu, então, dar uma forcinha.
Marina
hidratou os cabelos de Anna e ajudou-a a esmaltar as unhas, coisas que Anna
raramente fazia. Na hora de se vestir, escolheu um lindo vestido preto de alças
finas e acrescentou a ele um lindo bolerinho vermelho de crochê. Emprestou um
par de scarpin pretos e acrescentou
um colar bastante delicado ao pescoço da irmã. Ajudou na maquiagem, escolhendo
tons suaves de terra e, lógico, o melhor perfume da irmã. Anna estava tão linda
que seu pai quis saber o motivo de tamanha produção.
-
Vamos ter uma festa de quinze anos de uma garota nova do grupo. – Explicou Anna.
-
E a que horas devo te buscar? – Perguntou o pai como fazia todas as vezes que
Anna saía.
-
Não precisa, pai, o Rafael vai me trazer depois da festa.
Rafael
era um amigo de infância. Estudaram juntos, seus pais se conheciam. O pai de
Anna nunca se importou que ele a trouxesse para casa ou a buscasse para
passeios, confiava no rapaz, só nunca entendeu porque jamais namoraram, já que eram
tão confidentes. Cansara de ver a filha ao telefone com o amigo, muitas vezes
consolando-o, mas Anna insistia que eram amigos demais para se tornarem
namorados.
-
Então, se divirta. – Disse o pai com a voz mais carinhosa que se possa imaginar
e, logo em seguida, beijou o rosto da filha como uma espécie de desejo de boa
sorte.
Anna
saiu de casa com a irmã, ela para o grupo de jovens e Marina para um jantar com
a família do namorado. Levou tanto tempo se aprontando naquele dia, que perdera
a hora da missa, iria no domingo com a família.
Chegou
com a missa no fim, sentou-se ao fundo da igreja e ficou esperando que as
pessoas saíssem para se aproximar dos amigos. Percebendo que a igreja já estava
bem vazia, levantou-se para seguir em direção ao altar, virou-se para apanhar a
pequena bolsa que a irmã insistira que ela levasse, sob a desculpa de que
precisava de um lugar para pôr documento, mas Anna sabia que na verdade queria
que ela combinasse a bolsa com o sapato, era a cara da Marina. Quando se virou
para o corredor, estava, à sua frente, uma mão estendida... Gabriel,
gentilmente, olhava para Anna como quem admira uma obra de arte.
Anna
era uma menina muito bonita. Não muito alta, mas bastante elegante, com postura
de manequim. Não era magra como as modelos de passarela, mas tinha uma cintura
muito acentuada, como todas as mulheres da família do pai. A pele alva
destacava os cabelos e olhos negros e, com o traje daquela noite, parecia ainda
mais branca devido ao vermelho que cobria seus ombros. Fora sempre muito
cortejada pelos garotos de sua idade e pelos mais velhos, mas não admitia isso
a ninguém, preferia sentir-se comum, invisível, se possível.
Era
evidente que Gabriel a olhava deslumbrado. Seus olhos brilhavam, só não se sabe
se mais que os de Anna, que mal podia crer no que seus olhos viam. O que fazer?
Pegar em suas mãos ou ignorá-las? Não! Era sua chance... Segurou na mão de
Gabriel e sorriu. Foi o máximo que podia fazer. Tentar falar seria em vão, já
se formara aquele nó na garganta que só quem já esteve diante de um grande amor
conhece.
Gabriel
estava elegantíssimo com uma calça social creme e camisa preta. Mantinha aquele
perfume da semana anterior, quando Anna estivera a seu lado durante o encontro.
Ele era o típico “mauricinho”, sempre muito alinhado, a camisa dentro da calça,
cinto da cor do sapato, cabelos penteados para trás e as mangas longas da
camisa enroladas até próximo ao cotovelo. Era um príncipe perfeito, só faltava
ser dela.
-Você
está linda...
Ouviu
Gabriel sussurrar ao seu ouvido aproximando-se do rosto de Anna, logo após um
beijo para lá de suave que recebera em sua face direita. Não lavaria nunca mais
o rosto, era o pensamento de Anna naquele momento, mas palavra alguma ouviu-se
de seus lábios, apenas o rosado comum às tímidas surgiu em seu rosto,
confessando o que sentia.
Tão
logo quanto Anna deu seu primeiro passo ao lado do amor de sua vida, Julia
surgiu, como um raio, puxando-a como se esta fosse sua propriedade.
-
Oi, Gabriel. - Disse, afastando-se dele e carregando consigo a amiga. –
Precisamos conversar, na festa, ok?
-
Aconteceu alguma coisa?- Quis saber Anna.
-
Na festa. – Foi a resposta de Julia. E aproximaram-se dos amigos que já haviam
formado o círculo diante do altar.
A
reunião seguir muito animada, todos participaram ativamente, até Gabriel fez um
agradecimento pela família e amigos. Desta vez, Anna permanecera ao lado de
Mariane, no extremo oposto ao seu príncipe, tentando concentrar-se no encontro
e não em sua presença.
Abraço
da paz, e sentiu novamente o corpo de Gabriel junto ao seu, pode embriagar-se
mais uma vez em seu perfume...
-
Todos vão pra festa da Denize? – Perguntou Julio Cesar.
Ouviu-se
um sim quase uníssono. E começaram a sair da igreja. Anna estava perto da porta
quando sentiu que alguém tocava em seu braço. Virou-se e ouviu:
-
Quer ir comigo? Pode trazer suas amigas. – Disse, Gabriel, com gentileza,
mostrando aquele sorriso encantador que só ele tinha.
-
Vamos. – Foi a resposta de Anna, voltando-se para Mariane e Julia, que estavam
um pouco a frente de si, com aquele olhar de “diz-que-sim-pelo-amor-de-Deus”.
-
Tá. Foi a resposta que ouviu.
E
caminharam lado a lado até o carro de Gabriel. Um Gol preto.
-
Príncipes costumam ter cavalo branco... – Comentou Mariane bem perto do ouvido
de Anna, certificando-se de que ninguém mais pudesse ouvir. Mas a sua risada
fez todos olharem. Anna riu também, mas nada disse.
Gabriel
abriu a porta para que as amigas entrassem, o carro tinha apenas duas portas. Anna
ficou por último, claro, acomodando-se no banco da frente, ao lado do
motorista, que fechou delicadamente a porta para ela, antes de dar a volta e
assumir a direção.
-
Eu não sei onde é a festa, você pode me ajudar? – Perguntou a Anna com uma
piscada de olho que fez Anna suar frio.
-
Claro. – Foi tudo o que ela conseguiu responder.
As
amigas ajudaram e em menos de dez minutos estavam estacionando o carro em
frente ao salão onde se realizaria a festa.
Desceram
do carro e caminharam até a entrada do salão, onde, após identificação, entraram
e ocuparam seus lugares como indicado pela recepcionista.
Foi
designado aos amigos um espaço “vip”, onde se formou uma espécie de barzinho,
com mesas altas e pequenas, alguns bancos também altos e muito espaço para
ficar em pé e poderem conversar livremente,
sem a presença dos adultos. O Bartender
ficava no mesmo local, não servia bebia alcoólica, exigência imposta pelos pais
da aniversariante, mas preparava drinks
deliciosos com frutas e refrigerante, quem não soubesse, juraria que havia
álcool.
A
noite foi animadíssima. Quase todos os amigos de Anna estavam ali. Conversaram
muito, riram bastante, dançaram tanto quanto fosse possível. Gabriel estava
perto, não tão perto quanto Anna desejava, mas estava em seu campo de visão, e
isso já era o bastante para ela sentir-se mais alegre que nunca. Estavam no
mesmo ambiente, curtindo as mesmas conversas, companhias e distrações, era um
ótimo começo.
Chegou
a esperada valsa dos quinze anos e, junto dela, uma surpresa:
-
A aniversariante pede que seus amigos a acompanhem na valsa. – Disse a
cerimonialista, em alto e bom som, no microfone, e todos os presentes dirigiram
seus olhares para aquele recinto.
Os
pares foram se formando e lá estava, de novo, a mão de Gabriel estendida para
Anna, que não hesitou, pegou-a e caminhou até a pista de dança, onde os outros
casais já se encontravam, e a música começou. Vozes da primavera de Strauss.
Roberta, acompanhada por um amigo, deu o primeiro passo da valsa e os demais a
acompanharam.
Gabriel
deslizou suavemente sua mão esquerda pela cintura de Anna enquanto a direita
segurava firme e delicadamente a mão esquerda dela. A mão direita de Anna
tocava o ombro de Gabriel com o desejo de abraçá-lo. E Gabriel a conduziu
levemente ao doce som que tocava tão alto que ninguém poderia ouvir quando ele
disse ao ouvido de Anna que era muito bom poder dançar com ela. Esqueceram que
a valsa era da amiga e dançaram como se fossem o único casal presente naquele
lugar. Pararam ao som dos aplausos que, certamente, não eram para eles e, por
isso, passaram a aplaudir também.
Voltaram
aos seus lugares e a festa continuou no mesmo clima de antes. Era pouco mais de
uma hora quando Rafael aproximou-se dizendo que iria embora, mas antes que Anna
pudesse dizer algo, ele mesmo se antecipou dizendo que Gabriel a levaria para
casa. Anna olhou de um para outro e viu quando o amigo lhe piscara um olho. Entendeu
que aquilo já havia sido decido antes. Despediram-se e Anna viu Rafael saindo
acompanhado, também.
Poucos
minutos depois, Gabriel dirigiu-se a Anna.
-
Quando quiser ir, pode dizer.
-
Acho que podemos ir já. É tarde.
Saíram
da festa, caminharam lado a lado até o carro de Gabriel e ele, mais uma vez,
fez questão de abrir a porta para Anna, que tinha dificuldade para crer no que
estava acontecendo. Seguiram conversando até a casa dela. O salão onde fora a
festa não ficava muito longe, cerca de vinte minutos de carro até a casa de
Anna, mas Gabriel dirigiu o mais lentamente que podia, de modo que gastaram
mais de meia hora para chegar.
Conversaram
sobre muitas coisas. Anna soube as profissões dos pais de Gabriel, quantos
irmãos tinha, nomes e idades, e falara o mesmo sobre sua família. Descobriu que
ele estava no terceiro ano da faculdade de relações internacionais, falava
inglês e alemão fluentemente e estagiava em uma multinacional alemã há um ano.
Fora o primeiro aluno da turma de ensino médio, e tinha um boletim invejável na
faculdade, ela viu seu extrato de notas caído no console do carro. Comprara
aquele carro, que pagaria por mais dois anos, com o salário de seu estágio e
uma ajudinha do pai. Era muito responsável e acreditava que amor verdadeiro existe.
-
O que aconteceu entre você e a Letícia? Não deu certo? – Anna não podia perder
a chance de saber sua versão sobre os fatos.
-
Não. – Responder sinceramente, Gabriel. – Nós não temos muitas coisas em comum,
sabe? Então achamos que era melhor cada um seguir seu rumo. Mas ela é legal, só
não é quem eu queria ter comigo.
Anna
sentia-se aliviada. A resposta de Gabriel era muito parecida com a que Letícia
lhe dera, então ela não precisava mais se preocupar com a menina. Parecia que
as coisas iam se encaixando. Seria mesmo ele o príncipe com que Anna sonhava há
tanto tempo? Teria ela encontrado o amor de sua vida? Mas como saber o que ele
sentia? Ele tinha sido gentil a noite toda, mas daí a saber o que se passava em
seu coração era algo que Anna não podia.
Nunca
precisara se declarar a alguém. Primeiro porque nunca amara de verdade, segundo
porque seus antigos namoros começaram, simplesmente, sem que alguém dissesse o
que sentia. Ela, de fato, não sabia o que fazer.
Chegaram
à casa de Anna. As luzes estavam apagadas, mas ela sabia que a mãe estava
acordada, pois nunca dormia antes que o último de seus filhos estivesse dentro
de casa.
A
casa ficava no meio de um terreno muito grande, de maneira que havia um caminho
gramado e longo até a porta de entrada e Gabriel fez questão de acompanhá-la
até a porta, alegando que estava muito escuro para ela entrar sozinha.
Agora
Anna morreria. Seu coração deveria estar pulsando há 200 por minuto, ela sentia
seu corpo todo trêmulo, aquele nó na boca do estômago apareceu novamente e ela
sentia que poderia cair a qualquer momento, não suportando o peso de seu corpo
sobre suas pernas. Chegaram à porta, e Gabriel, gentilmente, pegou em ambas as
mãos de Anna, olhou em seus olhos com um brilho nunca antes visto e disse bem baixinho:
-
Obrigada pela noite maravilhosa que tivemos. Adorei sua companhia. Espero tê-la
outras vezes.
E,
antes que Anna dissesse qualquer palavra, beijou-lhe a face e envolveu-a em um
abraço forte e delicado que fez Anna sentir-se fora do chão. Todo seu corpo
sentindo cada centímetro do corpo de Gabriel, quente, cheiroso, envolvente.
Aquele abraço poderia durar o resto da vida. Anna não queria deixar que aqueles
braços a soltassem. Nunca antes sentia algo semelhante. Era simplesmente
inexplicável. A melhor sensação que já tivera na vida.
Soltaram-se.
-
Abra a porta e entre, depois eu saio. – Disse gentilmente Gabriel.
Anna
abriu a porta e entrou.
-
Tchau. – Foi tudo o que conseguiu dizer.
Viu
Gabriel afastando-se dela em direção ao portão, e quis gritar para que ele
voltasse, ou correr ao seu encontro e beijá-lo, mas nada fez. Limitou-se a
olhar... Quando ele fechou o portão, ela fechou a porta atrás de si, encostou
nela e ficou, sem saber o que pensar ou fazer.
Quando,
finalmente, conseguiu olhar para frente e caminhar para seu quarto, viu a mãe
sentada no sofá olhando para ela.
-
Quer me contar alguma coisa?
-
Ainda não, mãe, mas acho que estou apaixonada...
Deu
um beijo na mãe e foi para seu quarto.