(Queridos, para compensar minha ausência de ontem, além de expressar minha ingnação no texto anterior, apresento uma crônica que escrevi há algum tempo... Espero que gostem.)
Eu sempre me perguntei como seria chegar aos trinta. Minha mãe com trinta, eu com doze... Puxa, a diferença era imensa... Ela tinha quatro filhas. E trinta anos. Quando falávamos sobre a idade das mães, minhas amigas da época e eu, sempre dizíamos que nossas mães eram velhas. Afinal, eram nossas mães.
Foi nesse imaginário que cresci. Imaginando que aos trinta eu seria mãe, além de esposa claro, dona de casa... Que horror, nunca quis me imaginar assim, sempre preferi me imaginar uma profissional bem sucedida com uma assistente do lar.
Eu ficava imaginando como eu estaria nessa idade, horrível, que parecia ser o fim... Não o fim da vida, mas o fim da juventude, das baladas – como se eu tivesse sido baladeira – o fim do namoro, afinal, casada. A chegada das grandes responsabilidades. No fundo, não pensava nisso o tempo todo, para tentar postergar o momento.
Acontece que ele chegou. Ou melhor, eu cheguei. Cheguei aos temíveis trinta anos. E para minha surpresa, nada mudou. Nada! Eu me preparei para as mudanças. Faltam dois anos, falta um ano, faltam alguns meses. E quando, de fato, chegou, bem... Tudo ficou como estava.
A mesma casa, o mesmo marido – felizmente – os mesmos desejos. Outros sonhos, mas os mesmos desejos. Desejo de vencer, de ser grande – não velha – grande. O desejo de ser uma profissional de sucesso, de ser uma boa filha. Perguntei ao meu pai, na ocasião do tal aniversário: “Como você se sente tendo uma filha com trinta anos?” Igual. Foi a resposta. Como assim igual? Ele insistiu em dizer que nada mudou, cada idade minha, uma dele e ponto.
Foi então que percebi que, realmente, nada mudou. Nada muda quando se faz trinta. Muda a cada dia. Continuo sendo a mesma pessoa, mas uma nova pessoa a cada dia. Nova porque desejo viver mais, nova porque amo mais as pessoas com quem convivo, nova porque percebi que a vida é assim mesmo, um dia após o outro, um ano após o outro, e todos continuamos sendo os mesmo. O mesmo pai e a mesma mãe. Os mesmos filhos. Chegam novas pessoas, mas as antigas continuam. O mesmo amor, a mesma amante.
Olho-me, hoje, no espelho e vejo a mesma pessoa que via há vinte e tantos anos. Com novos “traços”, claro – ah, o que seria de mim sem o milagre do anti-idade, melhor não saber –, mas o mesmo sorriso, o mesmo olhar, o mesmo cabelo, acreditem o mesmo cabelo.
Percebo que, na verdade, o que muda não é a imagem, mas o que se imagina e se faz para tornar essa imagem possível. Meu pai é que tem razão, um ano dele um meu, só.
Agora já penso nos quarenta, mas sem medo, com ansiedade. Ansiedade de continuar vendo o mesmo rosto, o mesmo olhar, o mesmo sorriso, talvez outro cabelo, quem sabe? As mesmas pessoas que amo – e talvez outras a quem irei amar mais ainda... Aquelas dúvidas, do antes dos trinta, transportei para os quarenta. Será que chego lá mãe? É, na verdade, o que não se realizou. Talvez porque não fosse esse o propósito principal: é, não era. Agora pode vir a ser. Já me sinto madura para lidar com alguém que vai depender de mim em período integral.
Mas sem medos, apenas expectativas. Acho que esta é a grande mudança dos trinta. Os medos se transformam em expectativas. De mais vida, mais anos, mais alegrias. Tristezas? Quem não as tem? Mas não são para a vida toda, são para momento, breves, nos quais aprendemos a ter ainda mais expectativas de dias mais lindos.
Chegar aos trinta me fez ver o quão bom é viver, viver cada dia, sem ignorar o futuro, mas aproveitando ao máximo o presente, porque é ele que nos pertence e, muito provavelmente, será ele que nos permitirá ou não esse tal futuro.
Se realizei tudo o que imaginava realizar até os trinta? Não, ainda bem. Porque assim tenho mais expectativas para os próximos anos, afinal, nossa imaginação deve se manter fértil, e criativa...
De qualquer forma, tive grandes conquistas, às vezes acho que grandes demais para a pouca idade. É, pouca idade. Como dizia o grande Érico Veríssimo, que bom que mudamos o modo de ver a idade à medida que ela nos chega.
Aquela idéia maluca de que o namoro acabaria, ahh, melhorou, e muito. Agora eu espero pelos quarenta, a idade do lobo, não é. Mas até que eles me alcancem, ou eu os alcance, vivo intensamente cada dia, porque ele é meu. E, afinal, tenho mais nove de trinta, deixa-me aproveitar.