segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os príncipes existem (parte VIII)


(Uma revelação)

Não foi fácil dormir naquela noite, tudo que se tinha passado desde o encontro até a partida de Gabriel de sua casa fizeram Anna passar muito tempo pensando, refletindo sobre o que acontecera e se mais haveria por vir. Mas, finalmente, foi derrotada pelo sono e adormeceu. Se sonhou naquela noite, não saberia dizer, mas tinha certeza ao acordar que vivera o melhor dos sonhos... Pelo menos até aquele momento...
Estava tomando café quando a mãe aproximou-se, tocou-lhe nos ombros e perguntou:
- Dormiu bem, minha Querida? – Com a voz mais carinhosa que se possa imaginar.
- Como um anjo, mãe... - Anna queria muito contar o que acontecera a mãe, mas não sabia por onde começar. Contar o quê? Se, de fato, nada acontecera? Segurou na mão da mãe e disse:
- Conheci alguém há alguns meses e ontem pudemos conversar por muito tempo. Dançamos na festa, nos divertimos mais do que eu poderia desejar pra a noite de ontem. Ele é lindo, educado, inteligente...
A mãe acomodou-se em uma cadeira ao seu lado e continuou ouvindo o relato da filha com toda a atenção que uma boa amiga oferece a outra. A essa altura, Marina, depois de dar um beijo na irmã e na mãe, se juntara às duas e ouvia curiosa o que Anna contava. O relato durou todo o café da manhã e Anna certificou-se de não esquecer dos menores detalhes daquela noite tão linda que vivera com Gabriel.
Depois de muito ouvir, a mãe, finalmente, falou.
- Sabe, Anna, depois de tudo que passou com aquela pessoa que você não quer ouvir o nome, tive medo de que você desistisse de conhecer alguém que valesse à pena, mas hoje, depois de muitos meses, vejo seus olhos brilhando. Espero que esse Gabriel mereça tudo que você está sentindo agora.
- Vocês estão namorando? – Quis saber a curiosa irmã que mal se continha enquanto Anna contava, só não se pronunciou antes porque a mãe a silenciara a toda tentativa de falar, fazendo-a ouvir o que a irmã dizia.
- Marina! – repreendeu logo a mãe.
- Não, Marina. Mas saiba que se depender de mim, estaremos logo.
Marina bateu palmas de alegria, pulou e abraçou a irmã como se ouvisse a maior novidade do mundo. Parecia até que acabara de receber um grande presente.
- Eu sabia! Você estava linda ontem, não que não seja, claro, mas é que, bem, ontem você estava demais! Havia algo diferente. Você já sabia que se encontraria com ele?
- Não... quer dizer... eu tinha uma esperança de que ele aparecesse no grupo, mas não imaginava que tudo aquilo pudesse acontecer, sabe? – Anna não sabia muito bem como explicar, então falou o mínimo possível.
- E hoje, vocês vão se encontrar? – Não resistiu em perguntar.
- Não sei, Marina... Não combinamos nada, mas eu disse que iremos à missa à noite... Quem sabe...
Aquele deve ter sido o dia mais longo da vida de Anna. Por mais que tentasse fazê-lo parecer normal, não era. Ajudou a mãe com o almoço, lavou louça sozinha, nem pediu ajuda da irmã. Queria mesmo que o tempo passasse. Mas não adiantava... Teve a sensação de olhar no relógio a cada dez minutos...
Naquela tarde, a tia Nê apareceu para comer bolo e tomar café, e Anna teve de contar a ela os fatos da noite anterior. Foi assim que o pai tomou ciência da história, mas nada disse, limitou-se a olhar para a filha com o mesmo carinho de sempre. Anna estava tão feliz que seria capaz de recontar os eventos da noite anterior a um milhão de pessoas, sem esquecer um único detalhe.
Eram 4 horas quando o telefone tocou.  A própria Anna foi quem atendeu. Era sua amiga Julia. Só naquele momento é que Anna se dera conta de que esquecera que Julia queria conversar com ela na festa.
- Anna, foi o Gabriel que te levou pra casa?
- Foi. Você nem imagina como foi...
Mas Anna foi interrompida pela amiga que parecia brava, preocupada, ou qualquer coisa parecida:
- Anna, eu preciso mesmo falar com você. Me responda: você e o Gabriel ficaram ontem? – deu tanta ênfase à palavra “ficaram” que Anna ficou assustada.
- Ficar, ficar, não. Mas por quê?
- Você pode passar na minha casa antes de ir pra igreja? Seis hora, pode ser?
A voz de Julia estava tão estranha que Anna chegou a sentir arrepios.
- Claro, mas me diga o que houve. – Insistiu Anna
- Não dá pra explicar por telefone... Mas tem a ver com o Gabriel, você vem?
- Vou. Seis hora estarei aí, ok?
Julia desligou o telefone sem dizer nada, o que deixou Anna ainda mais preocupada. O que a amiga teria de tão importante para falar sobre Gabriel? Anna começou a pensar em inúmeros motivos para que Julia estivesse daquele jeito, mas desistiu quando percebeu que estava ficando com medo do que a amiga diria sobre seu príncipe.
Se até aquele momento as horas não passavam, depois elas se arrastaram. Era como se o relógio não mais funcionasse, os ponteiros não se moviam, e Anna desejava desesperadamente que chegassem às 18 horas. Os pensamentos começaram a atormentá-la. Será que havia algo de errado com Gabriel? Ele não seria aquela pessoa tão gentil que pensava? Será que ele tem outra namorada?
“Não! Se fosse isso a Julia já teria me dito, mas o que será que ela tem de tão importante para me contar? E por que esse suspense todo?” Anna perdeu-se em seus pensamentos pelas duas horas que se passaram até o encontro com a amiga.
Preparou-se mais cedo para a missa e avisou aos pais que iria antes para poder passar na casa de Julia, pois ainda não tinha contado os detalhes da festa a ela. Foi a desculpa perfeita. Bem que poderia ser apenas para isso, mas Anna sentia calafrios ao pensar no que a amiga teria para dizer.
Chegou à casa de Julia antes da seis, claro, mas a amiga sabia que Anna não aguentaria tanto e, por isso, já estava pronta à sua espera. Conduziu a amiga até seu quarto e começou a contar-lhe:
- Olha, eu não quero estragar nada, sei que ontem você o Gabriel tiveram um lance...
- Não rolou nada, já falei! – Interrompeu, Anna.
- Tá, mas vocês ficaram a festa toda juntos, dançaram, conversaram, ele te levou pra casa, então rolou um lance qualquer, certo? – Indagou como um advogado faria.
- Certo...
- Então, acontece que eu acho que ele está te enganando!
O coração de Anna parecia parado naquele instante. Não sabia se falava algo, ou simplesmente ouvia para saber aonde a amiga queria chegar. Olhou-lhe como quem diz e daí, e apenas ouviu.
- Na semana passada, quando você decidiu ir embora com seus pais, ele saiu da igreja com a Paulinha.
- Como assim? – Perguntou Anna aflita, sem saber o que pensar.
- Depois que você saiu, o pessoal resolveu ir comer esfirra. Achamos que ele iria também, vimos ele ajudando a Paula entrar no carro, fechou a porta pra ela, entrou no carro... Só  os dois, você está entendendo? – Julia olhava para Anna com ar de acusação, como se quisesse que a amiga entendesse algo importantíssimo, e continuou – Só que eles não foram, não apareceram na Casa da Esfirra!
Anna não sabia o que dizer. Depois de tudo que conversaram na véspera, Gabriel parecia ser a pessoa mais encantadora do mundo, falou até de sua família, mas diante desses novos fatos o que pensar? A jovem estava tão perdida em seus próprios pensamentos que nem ouviu as últimas palavras da amiga, exceto quando Julia tocou em seu braço e informou:
- Anna, eu sei que a Paulinha gosta dele... – procurou pelas palavras certas e continuou. – Faz tempo, Amiga. Só não te contei porque não achei que rolaria algo entre eles. A gente estudou na mesma classe, lembra?
Anna fez que sim com a cabeça, mas não pronunciou nada. E Julia continuou.
- Desde aquela época ela é era apaixonada pelo Gabriel, mas eles quase não se falavam, então achei que não era importante contar, mas agora acho que você devia saber.
Eram muitas informações para Anna digerir em pouco tempo, precisam ir para a igreja, já estava na hora. E foi o que ela propôs à amiga. Saíram sem dizer nada. Anna em silêncio e Julia respeitando os sentimentos da amiga.

Anna sempre fora muito justa com as pessoas e consigo. Apesar de sentir-se muito desconfortável com aquelas revelações, decidiu que o melhor a fazer era saber a verdade. O que realmente teria acontecido naquele sábado? E a única forma de saber era perguntando às pessoas envolvidas. Ela não tinha certeza se encontraria com Gabriel naquele dia, mas, certamente, Paula iria à missa. Então falaria com ela. Embora não fossem amigas íntimas, frequentavam o mesmo grupo há bastante tempo, saíam com o mesmo grupo de amigos, ela julgou que poderia conversar com a garota sem problemas. Precisa apenas pensar em como, e rápido.