quinta-feira, 25 de setembro de 2014

(des)Conecte-se

Você já viu aquela cena em que estão na sala, pai, mãe, filhos e cachorro, cada um com seu respectivo dispositivo eletrônico? E aquela em que há vários amigos ao redor de uma mesa, dentro de um bar, cada qual com seu aparelho celular, conversando ou “teclando” com outrem que não esteja presente? E, ainda, aquela em que marido e mulher encontram-se na cama,  e cada um olha e sorri para seu respectivo smartfone? Se alguma dessas cenas lhe parece familiar, talvez você esteja precisando desconectar-se.
Não me entendam mal! Não sou contra qualquer modernidade tecnológica, ao contrário, sou fã incondicional da tecnologia! Acho incrível como alguém conseguiu permitir que eu seja capaz de, com um clique, falar com alguém que está do outro lado do oceano, olhando para ele, através de um aparelho que cabe em minhas mãos (lembro-me de Speed Racer, e aquilo parecia impossível há algumas décadas...). Mas tenho a sensação de que deixamos esses eletrônicos dominarem nossas vidas.
Tenho observado, cada vez mais, uma dependência generalizada nesses dispositivos, qualquer que seja o lugar onde se esteja há sempre alguém utilizando um smarfone enquanto outras pessoas estão ao seu redor, sendo ignoradas. E, algumas vezes, essa pessoa sou eu... Em ambas as situações (o que mais me incomoda). Já me vi, confesso, dando mais atenção para o meu celular do que para alguém com que eu esteja, e isso tem me deixado preocupada. Até que ponto, realmente, precisamos desses aparelhos ao nosso lado em período integral? Você já se fez essa pergunta? Eu já, e estou me convencendo de que a resposta é: pouco; talvez, quase nada.
Estudos comprovam que a maioria das pessoas só consegue se concentrar em uma atividade por vez (e são pessoas absolutamente normais), o que significa que, quando tentamos falar pelo Whats ao mesmo tempo que ouvimos o que um amigo nos diz, um dos dois não terá nossa plena atenção: ou ignoramos parte da conversa virtual, ou parte da presencial. Uso-me, mais uma vez, como exemplo: sou do tipo que faz várias coisas ao mesmo tempo, e sempre justifico com a célebre frase “sou mulher”, mas admito: quando o assunto é importante, ouço apenas um! Sou capaz de pedir para quem está próximo, tentando falar comigo, que espere um pouco até eu concluir um email, antes que possa ouvi-lo, pois, caso contrário, perderei parte do que for dito. O que isso significa? Sou normal! E, por isso, só consigo fazer uma atividade por vez, ser mulher não me garante poderes especiais (embora às vezes eu os deseje...).
Agora, fico me perguntando quanto de uma aula é capaz de reter um garoto de 16 anos que, enquanto ouve (supostamente) o que diz o professor, troca mensagens com outrem (sabe-se-lá-quem) usando um de seus dispositivos eletrônicos. Será mesmo que ele consegue compreender o conteúdo de uma aula nessas condições? E, então, elaborei duas hipóteses: primeira, sua geração sofreu uma mutação genética, graças ao processo adaptativo da espécie humana (os dedos deles digitam no celular muito mais rápido que os meus), e, sim, ele é capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo; segunda, ele perdeu parte do que o professor explicou, afinal, a mensagem eletrônica era muito mais interessante.
Se a primeira hipótese se confirmar, ótimo, estamos formando gênios. Caso contrário, estamos formando alunos despreparados, porque perderam parte significativa dos conteúdos ensinados na escola.

Se houver alguém imaginando que meu desejo seja que todos se desconectem, errou. Desejo apenas que saibamos o momento adequado de se conectar, mas também de desconectar-se. Quantas descobertas incrivelmente maravilhosas tornaram-se possíveis antes que os smartfones fossem inventados? Quantas festas incríveis aconteceram antes da internet? Quantos amigos compartilharam bons momentos antes que as redes sociais passassem a existir? Muitos de nós nascemos porque houve um breve momento íntimo, sem que fosse necessário um dispositivo tecnológico (e outros graças à tecnologia médica, mas principalmente, em virtude do desejo de duas pessoas tornarem seu amor visível). Acreditemos: podemos desligar por algumas horas nossos celulares e nossas vidas correrão normalmente, aliás, talvez com mais qualidade.

terça-feira, 25 de março de 2014

Os príncipes existem (parte IX)


Uma revelação


Chegaram à igreja e lá estava Paula, junto com Mariane e Luisa. Anna quis aproximar-se, mas viu os pais e precisava dizer que havia chegado. Quando voltou para o fundo da igreja, já não viu Paula, mas percebeu que Mariane queria dizer-lhe algo, pois aproximou-se e falou baixinho.
- Como foi ontem?
- Muito bom. – foi tudo que Anna teve coragem de dizer.
- A Paula está uma fera! – revelou a amiga.
- Ãh? – mais nada saiu da boca de Anna, que naquele instante acabara de sentir uma mão em seu braço.
Olhando para o altar, só percebeu a chegada de Gabriel quando este lhe tocou o braço com suavidade. Ouviu seu “boa noite” como quem ouve as vozes de anjos. Sentiu seu corpo todo estremecer. Como era possível que a simples presença daquele garoto mexesse tanto com seus sentimentos? Era o que Anna pensava. Ficou observando aquela aparição que se colocou a seu lado. Sentia seu perfume, sua presença. Ele estava usando calça social marinho e camisa de mangas longas salmão. Era novamente a visão de um deus grego, parado bem ao seu lado, e a menina não sabia se para sua alegria ou desespero.
Quando finalmente se recompôs, olhou para Mariane, que nesse instante falava com Julia e perguntou.
- Por quê?
- Porque ela descobriu que a garota de que o Gabriel falava era você. – respondeu Mariane como quem tem um troféu a ser entregue.
- Eu não estou entendendo... – Anna estava perplexa. Eram muitas informações em pouco tempo.
-A gente achou que ela tinha saído com... – erguendo as sobrancelhas apontou Gabriel que estava parado bem próximo delas, junto de alguns amigos – ele... – e continuou com a voz mais baixa que poderia criar – mas acho melhor você perguntar para ele o que acontece...
- Não! Me conta logo! – Insistiu Anna, em vão, pois a amiga apenas fez um sinal com o dedo.
- Psiu. A missa.
Anna mal podia esperar o fim da celebração para saber mais detalhes de tudo aquilo que fervia em sua mente. Fez o possível para prestar atenção ao que o celebrante dizia, mas não foi nada fácil. Somente na hora da preparação das ofertas é que conseguiu começar a ouvir o que o padre dizia. Haja fé para tantas emoções...
Ao final da missa, seus pais se aproximaram perguntando se ela iria com eles ou ficaria com os amigos. Anna procurava por Gabriel sem saber se deveria ou não encontrá-lo. Eram tantas as perguntas, as dúvidas, mas era preciso que tudo se esclarecessem, fosse qual fosse o desfecho daquela história. Se tinha uma coisa que Anna repudiava era conversa pela metade, assunto sem explicação.
Antes, porém, que decidisse o que dizer aos pais, Gabriel se aproximou e cumprimentou o pai de Anna.
- Boa noite. Gabriel, muito prazer.
O pai aceitou a mão que se estendia a sua frente e respondeu algo que Anna não ouviu, mas deduziu que tivesse sido seu nome e um “prazer”.
O mesmo se passou com a mãe e o irmão caçula.
- Será que eu poderia levar a Anna pra jantar? Eu prometo que a levo de volta pra casa cedo. – Pediu, Gabriel, dirigindo ao pai de Anna, que não sabia o que responder àquele jovem educado que pedia permissão para levar sua filha a um passeio. Lembrou-se dos relatos que ela fizera durante todo o domingo e consentiu com a cabeça, acrescentando com uma piscada para a filha.
- Cuide bem do meu tesouro.
- Pode ter certeza que sim. – foi a resposta de Gabriel olhando para Anna.
Os pais despediram-se da garota e saíram, enquanto Gabriel conduziu Anna até seu carro, estacionado bem próximo à entrada da igreja.
Ajudou-a entrar no carro, como fizera na véspera. Depois deu a volta e assumiu o volante.
- Dirige?
- Dirijo.
- Se eu não for bom motorista, pode dizer, estou aberto às críticas em favor de meu melhor desempenho.
Anna queria dizer algo, mas as palavras lhe faltaram, limitou-se, pois, a rir da brincadeira.
- Você se importa se nós formos a um lugar diferente do que seus amigos vão? É que eu gostaria de conversar mais com você, só nós dois – disparou Gabriel depois de dirigir por duas quadras. – Acho que temos muito que saber um do outro e acho que com outras pessoas conhecidas por perto não vamos conseguir. Tudo bem?
- Ahã... – Anna precisava perguntar, mas como?
- Gosta de comida Italiana?
- Minha avó é italiana. Tudo que ela faz é divino... Adoro lasanha, capelette, pizza...
- Quer comer uma pizza?
- Quero! – Era melhor que fosse algo comum, Anna temia que Gabriel fosse o tipo que faz cerimônia para comer, e ela não se sentia pronta para um evento, queria apenas conversar e saber se poderia ou não continuar julgando-o seu príncipe-tão-esperado.
- Eu conheço o lugar perfeito! Cantina Della Nonna, conhece?
- Sim, mas nunca fui lá, parece tão formal. – Foi a resposta de Anna ao convite.
- Não é, você vai gostar. – Garantiu, ele.
O restaurante não ficava longe. Cerca de vinte minutos e estariam lá. Então Anna disparou a pergunta.
- Você conhece a Paula, que frequenta o grupo?
- Estudamos juntos.
- Vocês costumam se encontrar? Conversam? – os pensamentos de Anna estavam perdidos, ela não sabia se devia ter dito ou ficado em silêncio. Naquele momento se arrependera de sua pergunta. Mas já era tarde. Como se explicar? O que dizer? “Pensa logo, Anna, pensa!!!!” – É que me disseram que vocês saíram juntos do encontro na semana passada.
- Entendi... – foi a resposta de Gabriel, interrompida por Anna.
- Não entenda como uma cobrança, nem tenho esse direito, é que...
- Anna, pare de se desculpar. A Paula mora perto da minha casa, era caminho pra mim, não custava dar uma carona. Além do mais, achei que ela fosse mais sua amiga, eu queria saber mais de você...
- Como? – Anna começara a tremer. O que estava acontecendo? O que significaria tudo aquilo?
- Eu fui ao encontro naquele sábado – continuou Gabriel – pra te ver. Eu queria te conhecer melhor, falar com você, mas você foi embora sem se despedir, eu queria muito entender o que havia acontecido...
- Eu tinha um compromisso de família... – quis se explicar.
- Agora eu sei...
- Então foi só uma carona? – insistiu na pergunta.
Chegaram ao restaurante, e Gabriel acabara de estacionar o carro. Virou-se para Anna, pegou sua mão e disse com gentileza.
- Já faz algum tempo que presto atenção em você. Vejo você lendo nas missas, ajudando a todos durante as celebrações, sorrindo pra todo mundo, mas eu achava, e os meus amigos também, que você era impossível pra mim. – Gabriel falava com tanta sinceridade que Anna teve vontade de chorar, mas controlou-se.
- Eu não sou impossível...
- Mas parecia... Parecia inatingível pra mim. Eu sonhei várias vezes com você, em como chegar até você, em como te conhecer, mas desisti todas as vezes porque me garantiram que seria impossível ficar com você. Eu ainda não acredito que estou aqui, com você, só nós dois. – Gabriel olhava Anna nos olhos, como se pudesse ler seus pensamentos, sua alma. E continuou – Se isto for um sonho, quero continuar dormindo, tá?!
Anna não conseguia acreditar em tudo que acabara de ouvir. Ela passara meses sonhando com alguém que sonhava com ela e um não sabia do outro, um não acreditava na possibilidade de estar com o outro.
- Podemos entrar? – perguntou Gabriel tirando Anna de seus pensamentos. – Continuamos a conversa lá dentro, é mais seguro.
- Tá.
- Eu abro a porta, espere. – Exigiu o garoto, mantendo o título de encantador.
O que fazer? Como agir? “Seja natural, seja natural”, Anna repetia essas palavras como um mantra na tentativa de se acalmar, mas não funcionava, estava trêmula. Aceitar a mão de Gabriel para sair do carro era, certamente, a melhor opção, assim se certificaria de não cair ali mesmo.
Caminharam em silêncio até a entrada do restaurante, onde uma recepcionista muito educada veio recepciona-los.
- Mesa pra dois?
- Sim, obrigado. Em lugar mais discreto, pode ser? – Pediu Gabriel.
- Claro, me acompanhem.
A bela moça os conduziu até uma mesa que ficava ao canto do salão, próximo à parede de vidro que dava para um lindo jardim de inverno, no interior do restaurante.
- Está bom para vocês? – perguntou com um sorriso.
- Ótimo. – respondeu Gabriel sorrindo em resposta.
O garoto puxou a cadeira para Anna que, sem saber bem o que fazer - afinal, ninguém nunca lhe havia puxado a cadeira antes – sentou-se e ajudou-o a posicionar a cadeira de modo mais confortável para si. Gabriel sentou-se bem a seu lado, tão perto que ela podia sentir o inebriante perfume que vinha do rapaz.
O lugar era lindo, mais ainda do que Anna imaginara. Com um aspecto de cozinha antiga, móveis de madeira, toalhas impecavelmente brancas sobrepostas a outra vermelha e uma iluminação bastante sutil, que convidava a falar baixo e educadamente.
- Suco? – questionou Gabriel antes de solicitar ao garçom que nesse momento se aproximava dos dois.
- De laranja, por favor. E sem açúcar.
- Dois sucos de laranja sem açúcar, por favor. – pediu ao atendente, que lhe entregara o menu.
- De que sabor gosta? – perguntou a Anna.
- Qualquer uma com palmito. – era melhor não inventar muito. Quanto mais simples, mais fácil de engolir...
- Gosta de queijos?
- Adoro.
- Então meia de palmito e meia de quatro-queijos, pode ser?
- Pra mim está ótimo.
O garçom lhes entregou os sucos, anotou o pedido e saiu discretamente. Imediatamente Anna retomou a conversa de outrora.
- Desculpa o interrogatório, mas é que minhas amigas viram você conversando com a Paula e depois, abrindo a porta do carro pra ela, e...
- Eu gosto de ser educado – interrompeu o rapaz. – Aprendi com meu pai. Ele diz que um homem de verdade é sempre gentil com as damas, não importa ondeou quem ela seja.
- Ele tem razão! – Disse Anna. – é que estão acontecendo tantas coisas comigo recentemente, já nem sei o que pensar... Falaram, achei que pudesse ser verdade...
- A verdade é que estou agora no lugar que eu queria estar, com a Dama que eu desejo ter por companhia, num lugar muito agradável e não quero que isto mude.
Anna sentia-se ruborizar, parecia que aquele garoto e suas palavras haviam saído das páginas de um lindo livro de José de Alencar e se colocado ali, bem à sua frente. Nem em seus sonhos mais remotos poderia imaginar aquela cena, menos ainda aquelas palavras. Seria mesmo tudo verdade? Seria ele diferente de todos os sapos que ela conhecia? Como saber? Vivendo... Um dia de cada vez.
- Você é tão diferente dos rapazes que conheci... – Anna buscava as palavras, não podia dizer besteira diante de tamanha gentileza. – Só fico me perguntando se isso é mesmo possível ou se é apenas impressão de primeiro encontro...
- Pra começar: este é o nosso segundo encontro... – Anna estava enlouquecida, ele considerara a noite anterior um encontro... Era demais pra ser verdade. – Segundo: pra ter certeza de que eu sou mesmo assim, que estou mesmo apaixonado por você e que farei o possível pra cada encontro ser melhor que o anterior, você precisa dizer sim...
Inevitavelmente, uma lágrima formou-se nos olhos de Anna. Era de fato um sonho se tornando realidade. Engoliu o que lhe restava na boca seca e indagou:
- Dizer sim?
- É. Quer ser minha namorada?
Um enorme e lindo sorriso se abriu no rosto já molhado por uma única lágrima que escorria do olho esquerdo. Pra que palavras? Elas eram dispensáveis, mas inevitáveis.
- Sim... mas com uma condição: - Os olhos de Gabriel pareceram assustados, mas nada disse, esperou atentamente. – Que a minha liberdade continue existindo, que você faça parte da minha vida, mas seja ela.
- Fazer você feliz é parte do meu compromisso. Te encontrei livre, e é assim que te quero. Livre pra me amar e aceitar o meu amor.
Com a mão esquerda sob os longos cabelos de Anna e a direita tocando-lhe a face, Gabriel aproximou-se o quanto podia da amada, até que seus lábios se tocaram docemente, como se já se conhecessem há uma eternidade e fossem feitos para ficar juntos. Beijou-a como se fosse, aquele, um beijo imortalizante, capaz de tirá-los desta dimensão e remetê-los a um mundo perfeito, onde somente o amor existisse. Naquele beijo, Anna descobriu o verdadeiro sabor de um beijo apaixonado, inebriante, sedutor, arrebatador. Ela não sabe quanto tempo durou aquele beijo, mas sabe que foi perfeito.
Distanciando-se levemente, olharam-se nos olhos e selaram ali um compromisso de amor que só aumentou a cada dia. Anna contou-lhe toda a sua saga desde conhecê-lo até aquele dia, mas não naquela noite. Aquela noite serviu apenas para se conhecerem: o livro favorito, o melhor filme, o lugar dos sonhos...

Se a menina sonhadora pudesse resumir aquele dia em uma palavra, seria, certamente, inesquecível! 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os príncipes existem (parte VIII)


(Uma revelação)

Não foi fácil dormir naquela noite, tudo que se tinha passado desde o encontro até a partida de Gabriel de sua casa fizeram Anna passar muito tempo pensando, refletindo sobre o que acontecera e se mais haveria por vir. Mas, finalmente, foi derrotada pelo sono e adormeceu. Se sonhou naquela noite, não saberia dizer, mas tinha certeza ao acordar que vivera o melhor dos sonhos... Pelo menos até aquele momento...
Estava tomando café quando a mãe aproximou-se, tocou-lhe nos ombros e perguntou:
- Dormiu bem, minha Querida? – Com a voz mais carinhosa que se possa imaginar.
- Como um anjo, mãe... - Anna queria muito contar o que acontecera a mãe, mas não sabia por onde começar. Contar o quê? Se, de fato, nada acontecera? Segurou na mão da mãe e disse:
- Conheci alguém há alguns meses e ontem pudemos conversar por muito tempo. Dançamos na festa, nos divertimos mais do que eu poderia desejar pra a noite de ontem. Ele é lindo, educado, inteligente...
A mãe acomodou-se em uma cadeira ao seu lado e continuou ouvindo o relato da filha com toda a atenção que uma boa amiga oferece a outra. A essa altura, Marina, depois de dar um beijo na irmã e na mãe, se juntara às duas e ouvia curiosa o que Anna contava. O relato durou todo o café da manhã e Anna certificou-se de não esquecer dos menores detalhes daquela noite tão linda que vivera com Gabriel.
Depois de muito ouvir, a mãe, finalmente, falou.
- Sabe, Anna, depois de tudo que passou com aquela pessoa que você não quer ouvir o nome, tive medo de que você desistisse de conhecer alguém que valesse à pena, mas hoje, depois de muitos meses, vejo seus olhos brilhando. Espero que esse Gabriel mereça tudo que você está sentindo agora.
- Vocês estão namorando? – Quis saber a curiosa irmã que mal se continha enquanto Anna contava, só não se pronunciou antes porque a mãe a silenciara a toda tentativa de falar, fazendo-a ouvir o que a irmã dizia.
- Marina! – repreendeu logo a mãe.
- Não, Marina. Mas saiba que se depender de mim, estaremos logo.
Marina bateu palmas de alegria, pulou e abraçou a irmã como se ouvisse a maior novidade do mundo. Parecia até que acabara de receber um grande presente.
- Eu sabia! Você estava linda ontem, não que não seja, claro, mas é que, bem, ontem você estava demais! Havia algo diferente. Você já sabia que se encontraria com ele?
- Não... quer dizer... eu tinha uma esperança de que ele aparecesse no grupo, mas não imaginava que tudo aquilo pudesse acontecer, sabe? – Anna não sabia muito bem como explicar, então falou o mínimo possível.
- E hoje, vocês vão se encontrar? – Não resistiu em perguntar.
- Não sei, Marina... Não combinamos nada, mas eu disse que iremos à missa à noite... Quem sabe...
Aquele deve ter sido o dia mais longo da vida de Anna. Por mais que tentasse fazê-lo parecer normal, não era. Ajudou a mãe com o almoço, lavou louça sozinha, nem pediu ajuda da irmã. Queria mesmo que o tempo passasse. Mas não adiantava... Teve a sensação de olhar no relógio a cada dez minutos...
Naquela tarde, a tia Nê apareceu para comer bolo e tomar café, e Anna teve de contar a ela os fatos da noite anterior. Foi assim que o pai tomou ciência da história, mas nada disse, limitou-se a olhar para a filha com o mesmo carinho de sempre. Anna estava tão feliz que seria capaz de recontar os eventos da noite anterior a um milhão de pessoas, sem esquecer um único detalhe.
Eram 4 horas quando o telefone tocou.  A própria Anna foi quem atendeu. Era sua amiga Julia. Só naquele momento é que Anna se dera conta de que esquecera que Julia queria conversar com ela na festa.
- Anna, foi o Gabriel que te levou pra casa?
- Foi. Você nem imagina como foi...
Mas Anna foi interrompida pela amiga que parecia brava, preocupada, ou qualquer coisa parecida:
- Anna, eu preciso mesmo falar com você. Me responda: você e o Gabriel ficaram ontem? – deu tanta ênfase à palavra “ficaram” que Anna ficou assustada.
- Ficar, ficar, não. Mas por quê?
- Você pode passar na minha casa antes de ir pra igreja? Seis hora, pode ser?
A voz de Julia estava tão estranha que Anna chegou a sentir arrepios.
- Claro, mas me diga o que houve. – Insistiu Anna
- Não dá pra explicar por telefone... Mas tem a ver com o Gabriel, você vem?
- Vou. Seis hora estarei aí, ok?
Julia desligou o telefone sem dizer nada, o que deixou Anna ainda mais preocupada. O que a amiga teria de tão importante para falar sobre Gabriel? Anna começou a pensar em inúmeros motivos para que Julia estivesse daquele jeito, mas desistiu quando percebeu que estava ficando com medo do que a amiga diria sobre seu príncipe.
Se até aquele momento as horas não passavam, depois elas se arrastaram. Era como se o relógio não mais funcionasse, os ponteiros não se moviam, e Anna desejava desesperadamente que chegassem às 18 horas. Os pensamentos começaram a atormentá-la. Será que havia algo de errado com Gabriel? Ele não seria aquela pessoa tão gentil que pensava? Será que ele tem outra namorada?
“Não! Se fosse isso a Julia já teria me dito, mas o que será que ela tem de tão importante para me contar? E por que esse suspense todo?” Anna perdeu-se em seus pensamentos pelas duas horas que se passaram até o encontro com a amiga.
Preparou-se mais cedo para a missa e avisou aos pais que iria antes para poder passar na casa de Julia, pois ainda não tinha contado os detalhes da festa a ela. Foi a desculpa perfeita. Bem que poderia ser apenas para isso, mas Anna sentia calafrios ao pensar no que a amiga teria para dizer.
Chegou à casa de Julia antes da seis, claro, mas a amiga sabia que Anna não aguentaria tanto e, por isso, já estava pronta à sua espera. Conduziu a amiga até seu quarto e começou a contar-lhe:
- Olha, eu não quero estragar nada, sei que ontem você o Gabriel tiveram um lance...
- Não rolou nada, já falei! – Interrompeu, Anna.
- Tá, mas vocês ficaram a festa toda juntos, dançaram, conversaram, ele te levou pra casa, então rolou um lance qualquer, certo? – Indagou como um advogado faria.
- Certo...
- Então, acontece que eu acho que ele está te enganando!
O coração de Anna parecia parado naquele instante. Não sabia se falava algo, ou simplesmente ouvia para saber aonde a amiga queria chegar. Olhou-lhe como quem diz e daí, e apenas ouviu.
- Na semana passada, quando você decidiu ir embora com seus pais, ele saiu da igreja com a Paulinha.
- Como assim? – Perguntou Anna aflita, sem saber o que pensar.
- Depois que você saiu, o pessoal resolveu ir comer esfirra. Achamos que ele iria também, vimos ele ajudando a Paula entrar no carro, fechou a porta pra ela, entrou no carro... Só  os dois, você está entendendo? – Julia olhava para Anna com ar de acusação, como se quisesse que a amiga entendesse algo importantíssimo, e continuou – Só que eles não foram, não apareceram na Casa da Esfirra!
Anna não sabia o que dizer. Depois de tudo que conversaram na véspera, Gabriel parecia ser a pessoa mais encantadora do mundo, falou até de sua família, mas diante desses novos fatos o que pensar? A jovem estava tão perdida em seus próprios pensamentos que nem ouviu as últimas palavras da amiga, exceto quando Julia tocou em seu braço e informou:
- Anna, eu sei que a Paulinha gosta dele... – procurou pelas palavras certas e continuou. – Faz tempo, Amiga. Só não te contei porque não achei que rolaria algo entre eles. A gente estudou na mesma classe, lembra?
Anna fez que sim com a cabeça, mas não pronunciou nada. E Julia continuou.
- Desde aquela época ela é era apaixonada pelo Gabriel, mas eles quase não se falavam, então achei que não era importante contar, mas agora acho que você devia saber.
Eram muitas informações para Anna digerir em pouco tempo, precisam ir para a igreja, já estava na hora. E foi o que ela propôs à amiga. Saíram sem dizer nada. Anna em silêncio e Julia respeitando os sentimentos da amiga.

Anna sempre fora muito justa com as pessoas e consigo. Apesar de sentir-se muito desconfortável com aquelas revelações, decidiu que o melhor a fazer era saber a verdade. O que realmente teria acontecido naquele sábado? E a única forma de saber era perguntando às pessoas envolvidas. Ela não tinha certeza se encontraria com Gabriel naquele dia, mas, certamente, Paula iria à missa. Então falaria com ela. Embora não fossem amigas íntimas, frequentavam o mesmo grupo há bastante tempo, saíam com o mesmo grupo de amigos, ela julgou que poderia conversar com a garota sem problemas. Precisa apenas pensar em como, e rápido.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Mais um...

Mais um ano se inicia, mais um desafio se revela, mais uma expectativa. Todo começo de ano é assim, parece que tudo mudou, mas, quando olhamos mais de perto, percebemos que somos nós a mudar. Por menos óbvias que pareçam, as mudanças em nós mesmos sempre ocorrem. Quem nunca interrompeu uma conversa para dizer espantado “nossa, eu disse isso?”? Creio que muitos de nós já, e o assombro é justamente pela grandiosidade do que fora dito. Mudamos tão rapidamente que nem nos damos conta de quanto evoluímos.
Quem tem (ou teve) a oportunidade de conviver com uma criança em sua primeira infância (até os 5 anos), deve ter se perguntado inúmeras vezes “como é possível?”, diante das transformações em todos os aspectos vividos por uma criança: de um dia para outro a roupa não serve mais; hoje ela fala o que não falava ontem; de repente sai andando sozinha e logo corre, pula, anda de bicicleta; uma pergunta que você não sabe de onde saiu... Nossa! São tantas as mudanças que muitas vezes parece que não conseguimos acompanhar.
Acontece que não são apenas as crianças que mudam; todos nós mudados, mas de forma mais discreta...
Sou professora há 12 anos, mas quando olho para traz tenho a sensação de que nunca fiz o que faço agora, mas sempre ensinei os mesmos conteúdos. Ora, é que eu não sou a mesma... Houve uma época em que eu achava que tinha que falar tudo, hoje sei que tenho que ouvir antes, deixar as perguntas aparecerem primeiro, e falar só o necessário, ainda que vá além do que eu pretendia, ou nem chegue perto...
Aula de mesmo conteúdo em diferentes salas não pode ser igual! Porque os alunos não são os mesmo, e é preciso que eles mostrem o caminho para que eu possa caminhar com eles, ajudando-os a construir saberes e retirar obstáculos, além, é claro, de ajudá-los a perceber que mudam o tempo todo...
E aceitando que mudamos é que devemos nos impor novas metas, novos desafios. Você já pensou no que quer mesmo fazer em 2014 que ainda não fez? Se não, é hora de pensar; se sim, já é tempo de agir. Minha avó aos 76 anos decidiu aprender a ler, ler de verdade, não apenas os letreiros dos ônibus ou nome dos alimentos. Hoje ela está lendo um livro! Meu Deus, nem sei como expressar a minha alegria pela conquista dela; ela expressa lendo.
Uma amiga disse recentemente que quer aprender a tocar piano e eu disse a ela que vá mesmo! Se os dedos estiverem duros, aprendem-se novos exercícios e logo eles obedecerão. Porque mais aprendemos, quanto mais queremos.

Seja hoje melhor que ontem, mas não melhor que amanhã. Encare novos desafios o lute por vencê-los. Chegue a dezembro dizendo “conquistei tantas coisas que 2014 vai deixar lembranças”! E não se lastimando porque mais um ano acabou. As minhas metas eu já tracei, e você?