Há 14 meses
a educação vem enfrentando mudanças urgentes, adaptações necessárias e
alterando seu, secular, cenário: a sala de aula. Mudanças que eram necessárias
há tempos, mas as quais ninguém estava disposto a fazer, por, ao menos, duas
razões: mudar o que já se consolidou como bom é um desafio muito grande de
mudança de paradigmas e, convenhamos, uma área que não gosta muito de mexer
nesse terreno é a educação; por outro lado, trata-se de uma mudança que mexe, e
muito, no bolso dos governos, em todas as suas instâncias, e está aí outro
espaço em que o não-queremos-falar-disso prevalece.
Quem
acompanha meus artigos já sabe que não sou favorável ao homeschooling (não que
não queira, apenas não consigo), também tenho minhas ressalvas sobre educação à
distância, porque temo que a disciplina necessária aos estudantes desta
modalidade possa prejudicar seu rendimento, em especial quando pensamos na
educação básica. Todavia, há um ano, nossas casas se tornaram um espaço
(adequado ou não) de aula.
Ou seja, a
ead chegou sem que nos preparássemos para ela, fomos obrigados a engolir essa
modalidade do jeito que deu. E, preciso dar minha cara a bater, deu certo.
Milhares de alunos da educação básica têm tido aulas remotas e com muita
eficiência, em especial, porque escolas e professores se empenharam, mais do
que podiam, para garantir que essas aulas acontecessem. Então podemos assumir
essa forma de ensino de uma vez por todas?
Não. Não
podemos porque, apesar da vantagem de se aprender sem o risco de contaminação,
uma vez que estamos todos em casa, não podemos ignorar que a maioria dos
estudantes brasileiros dessa faixa etária está nas escolas públicas e,
infelizmente, sem aulas on-line.
A Unesco
fala de um prejuízo de 2/3 do ano acadêmico, em razão as escolas fechadas. Aceitando
que esse prejuízo é mais impactante entre os mais vulneráveis, não poderemos
ignorar que aquela que existe para promover oportunidades mais igualitárias
está, neste momento, prestando um desserviço à sociedade. A educação está
promovendo a desigualdade, não que ela queira...
É certo e
inquestionável que a preservação da saúde deve ser a prioridade de qualquer
pessoa e, principalmente, de todos os governantes. Urge que vidas sejam salvas,
que vacinas cheguem a toda a população, que se conscientizem as pessoas sobre a
importância da prevenção, inclusive com o afastamento social, contudo, queremos
saber: quando a educação será tratada como fundamental para a constituição de
um país mais justo? Já é hora de investir em mudanças úteis e necessárias para
que a educação de qualidade chegue a todos os alunos.
Não quero
ficar lamentando o que se passou, fez-se o que era preciso para manter alunos,
professores e familiares fora do risco de contaminação, mas já é tempo de olhar
para a frente e pensar em políticas públicas que permitam oferecer o que os
alunos precisam para ter acesso à educação de qualidade. Seja com aulas
presenciais, respeitados os protocolos sanitários, seja com aulas on-line,
garantindo aos alunos os recursos necessários para essa modalidade; seja preparando
os pais para o suporte que as crianças menores necessitam. Enfim, é hora de
permitir que alunos da rede pública e privada tenham, igualmente, acesso a uma
boa educação, que lhes permita receber uma formação adequada para a vida, para
a universidade, para o mercado de trabalho.
Ao contrário
do que pregue o senso comum, o Brasil está entre os países que mais gastam com
educação, de acordo com a OCDE (Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico). Talvez seja hora de olharmos, então, como esse investimento é
gasto, redirecionar custos, investir melhor, como dizem os economistas.
É hora de
toda a população lutar por essa educação de qualidade de que se fala há tanto
tempo, independentemente de estarmos nas escolas públicas ou privadas. Melhorar
a qualidade da educação significa formar melhor as pessoas para, quem sabe,
tornar o mundo um lugar melhor. Eu acredito na educação.