sexta-feira, 28 de maio de 2021

Educação 4.0

 


Há 14 meses a educação vem enfrentando mudanças urgentes, adaptações necessárias e alterando seu, secular, cenário: a sala de aula. Mudanças que eram necessárias há tempos, mas as quais ninguém estava disposto a fazer, por, ao menos, duas razões: mudar o que já se consolidou como bom é um desafio muito grande de mudança de paradigmas e, convenhamos, uma área que não gosta muito de mexer nesse terreno é a educação; por outro lado, trata-se de uma mudança que mexe, e muito, no bolso dos governos, em todas as suas instâncias, e está aí outro espaço em que o não-queremos-falar-disso prevalece.

Quem acompanha meus artigos já sabe que não sou favorável ao homeschooling (não que não queira, apenas não consigo), também tenho minhas ressalvas sobre educação à distância, porque temo que a disciplina necessária aos estudantes desta modalidade possa prejudicar seu rendimento, em especial quando pensamos na educação básica. Todavia, há um ano, nossas casas se tornaram um espaço (adequado ou não) de aula.

Ou seja, a ead chegou sem que nos preparássemos para ela, fomos obrigados a engolir essa modalidade do jeito que deu. E, preciso dar minha cara a bater, deu certo. Milhares de alunos da educação básica têm tido aulas remotas e com muita eficiência, em especial, porque escolas e professores se empenharam, mais do que podiam, para garantir que essas aulas acontecessem. Então podemos assumir essa forma de ensino de uma vez por todas?

Não. Não podemos porque, apesar da vantagem de se aprender sem o risco de contaminação, uma vez que estamos todos em casa, não podemos ignorar que a maioria dos estudantes brasileiros dessa faixa etária está nas escolas públicas e, infelizmente, sem aulas on-line.

A Unesco fala de um prejuízo de 2/3 do ano acadêmico, em razão as escolas fechadas. Aceitando que esse prejuízo é mais impactante entre os mais vulneráveis, não poderemos ignorar que aquela que existe para promover oportunidades mais igualitárias está, neste momento, prestando um desserviço à sociedade. A educação está promovendo a desigualdade, não que ela queira...

É certo e inquestionável que a preservação da saúde deve ser a prioridade de qualquer pessoa e, principalmente, de todos os governantes. Urge que vidas sejam salvas, que vacinas cheguem a toda a população, que se conscientizem as pessoas sobre a importância da prevenção, inclusive com o afastamento social, contudo, queremos saber: quando a educação será tratada como fundamental para a constituição de um país mais justo? Já é hora de investir em mudanças úteis e necessárias para que a educação de qualidade chegue a todos os alunos.

Não quero ficar lamentando o que se passou, fez-se o que era preciso para manter alunos, professores e familiares fora do risco de contaminação, mas já é tempo de olhar para a frente e pensar em políticas públicas que permitam oferecer o que os alunos precisam para ter acesso à educação de qualidade. Seja com aulas presenciais, respeitados os protocolos sanitários, seja com aulas on-line, garantindo aos alunos os recursos necessários para essa modalidade; seja preparando os pais para o suporte que as crianças menores necessitam. Enfim, é hora de permitir que alunos da rede pública e privada tenham, igualmente, acesso a uma boa educação, que lhes permita receber uma formação adequada para a vida, para a universidade, para o mercado de trabalho.

Ao contrário do que pregue o senso comum, o Brasil está entre os países que mais gastam com educação, de acordo com a OCDE (Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Talvez seja hora de olharmos, então, como esse investimento é gasto, redirecionar custos, investir melhor, como dizem os economistas.

É hora de toda a população lutar por essa educação de qualidade de que se fala há tanto tempo, independentemente de estarmos nas escolas públicas ou privadas. Melhorar a qualidade da educação significa formar melhor as pessoas para, quem sabe, tornar o mundo um lugar melhor. Eu acredito na educação.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Em casa ou na escola? Parte 2

 

Estudar em casa pode dar certo? Pode. Não há dúvida. Mas para todos? Quando vamos à escola, temos professores especialistas. Pessoas que passaram (e passam) anos estudando sobre o que e como se deve ensinar em cada fase do desenvolvimento de um ser humano. Desde a infância, quando não se sabe ler ou escrever, mas podem ter outras habilidades desenvolvidas, algumas das quais, inclusive, serão fundamentais para o aprendizado da escrita; até o término no ensino básico, quando, já crescidos e alfabetizados, são expostos a diferentes conteúdos, com o propósito de lhes oferecer maiores conhecimentos.

À medida que os alunos crescem, passam a ter diferentes professores para diferentes disciplinas. Isso porque, há séculos, percebeu-se que é mais produtivo quando um professor se especializa em uma área do saber, do que quando ele é polivalente. Imagine as diferenças impostas às aulas de matemática e língua portuguesa, como esperar que o mesmo indivíduo domine todo o conjunto dessas duas áreas, a ponto de ensinar com maestria para alunos de 14 ou 15 anos.

Não estou, é claro, duvidando da capacidade de reter conhecimento de um adulto, que estudou por décadas os diferentes assuntos, mas em como ele poderia ensinar para adolescentes tudo o que é necessário para o seu desenvolvimento intelectual. A física precisa da matemática, mas não se pode exigir domínio de ambas de um único indivíduo, são 4 anos de ensino superior para cada uma dessas áreas, só para se ter um exemplo.

Existe um plano nacional que determina o que se deve ensinar aos alunos em cada etapa do seu desenvolvimento, que as escolas, há anos, classificam como séries. Vamos dar como aprovado o homeschooling, quem ensinará todo esse conteúdo para as crianças e adolescentes? Os pais? Ou pagarão professores particulares? (então vamos ter escolas em casa?). Acreditem, quero defender o homeschooling, mas está difícil.

Vamos a um exemplo. O livro Extraordinário, que gerou um filme homônimo, conta a história de um garoto que, devido a uma deformidade crânio-facial, pratica o homeschooling até os 10 anos (não vou me alongar nos detalhes, mas o livro vale capa página – o filme também). Quando ele vai para escola, contrariando a expectativa dos demais alunos, ele mostra que aprendeu muito mais em casa que aqueles que estavam na escola. Vejam, trata-se de ficção, mas nos EUA o homeschooling é legalizado e praticado por muitas famílias, e, de fato, muitas crianças aprendem muito em casa, talvez mais do que se esperaria de uma escola, contudo, não se pode ignorar o fato de que a mãe (na história de “Extraordinário”) parou de trabalhar e cessou sua pesquisa universitária para se dedicar aos cuidados e à educação do garoto. É um caso de familiar com conhecimentos suficientes para ensinar uma criança em casa. A pergunta que não quer calar: todos os pais têm?

Saindo da ficção e avançando na idade do estudante, temos o caso de uma adolescente, com 17 anos, da cidade de Sorocaba, que não frequentou escola durante o ensino médio, estudou em casa e foi aprovada em uma das mais concorridas universidades do Brasil. Para ela funcionou. Funcionaria para todos os adolescentes de sua idade?

Sim, o homeschooling pode ser uma opção, desde que muito bem regulamentada e fiscalizada. Quem ensinará as crianças ou adolescentes? O que deverá ser aprendido em determinado período? E, a meu ver, o mais importante: qual o propósito de se estudar em casa, sem o convívio social tão importante para todas as pessoas, em especial, para as crianças e os adolescentes?

Vimos há tempos falando sobre os problemas causados pelo individualismo, mas será que essa prática de educação em casa não aumentará essa problemática? E a tolerância? Vamos evitar o contato com o diferente? Mas e tudo que aprendemos com as diferenças?

Temo, verdadeiramente, que a aprovação do homeschooling no país seja mais uma forma de segregação. Pior, seja mais uma desculpa para aumentar as desigualdades, se não houver regras muito claras para que apenas estude em casa aqueles que, de fato, possuírem as condições necessárias para garantir aprendizado justo. Mas isso também não seria desigualdade?

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Em casa ou na escola? Parte 1

Volta ao cenário nacional a discussão sobre a validade do homeschooling, termo inglês para se referir ao método de aprendizagem realizado em casa, sem frequência escolar. Desde o início do atual governo federal, discute-se a possibilidade da liberação para que pais possam ensinar conteúdos escolares a seus filhos em casa. E, obviamente, as opiniões se dividem. Mas, não se trata, apenas, de uma questão de opinião pessoal, mas de se analisar benefícios e desvantagens desse método de educação.

Gosto do ditado que diz que “em time que está ganhando não se deve mexer”, contudo, gosto ainda mais do que defende Eráclito, filósofo grego que viveu no século V a. C., ao dizer que “não se pode um homem banhar-se duas vezes no mesmo rio”: primeiro porque as águas passam, mudam; segundo, porque o homem se transforma o tempo todo. Olhando assim, mudar o que se consolidou, há séculos, como a principal instituição de ensino parece bastante aceitável, no entanto, não é à toa que a escola tornou-se essa referência, uma vez que até não muito longe a educação era realizada em casa, em especial para as meninas, que não podiam frequentar as primeiras unidades escolares.

Estamos então diante de uma questão muito delicada: é bom ou não é o homeschooling? E mais: é bom ou não é ir para uma escola regular?

Pensemos nas vantagens do homeschooling: você estuda na sua casa, no melhor horário para você e ainda pode escolher o que e quando vai estudar. Isso parece bom. Mas não é exatamente contra isso que estamos lutando nesse período de pandemia? Tem sido fácil ter os filhos em casa, tendo aulas no horário que cabe na agenda dos pais? Tem sido produtivo?

Há incontáveis pais e mães reclamando porque não conseguem acompanhar os estudos dos filhos em casa, por diversas razões: horários se chocam com os do trabalho, reuniões surgem e atrapalham o cronograma pensado, a criança não dá a atenção que (o pai ou mãe acha que) deveria aos estudos, a criança de distrai facilmente, os pais desconhecem as metodologias atuais e, por isso, têm dificuldade para ajudar os filhos.

Claro que essas são situações que afetam com maior impacto as crianças menores, a partir de determinada idade eles ganham autonomia e já não recorrem mais aos pais, viram-se como podem. E esse “viram-se” está sendo suficiente para garantir aprendizagem?

Você pode estar pesando que eu só olho a parte ruim. Então vamos olhar a parte boa: há crianças que se adaptaram muito bem às aulas em casa (on-line ou não), cujos pais têm grande facilidade com a pedagogia infantil e também com os conteúdos a serem ensinados, sem contar que a criança tem uma atenção fabulosa para as aulas.

Não se trata de utopia, mas de realidade. Há, de fato, a presença desse contexto lindo em vários lares brasileiros, pena que eles são a minoria.

Ao conversar com professores das redes pública e privada, ouvimos relatos de pais que não conseguem garantir que os filhos realizem as tarefas, e essa tem sido a regra, não a exceção. Infelizmente, o número de pais que não estão conseguindo conduzir as aulas de seus filhos neste momento é extremamente grande. E, novamente, não pretendo julgar pais ou professores, quero apenas abrir uma reflexão sobre quanto a educação realizada em casa será mesmo eficiente.

E, caro leitor, precisamos, ainda, refletir sobre o maior prejuízo deste período para os alunos, de todas as idades: falta a interação social. Convencer um aluninho de 5 anos a realizar as tarefas junto com os coleguinhas, quando todos estão fazendo a mesma coisa, é infinitamente mais fácil que quando esse mesmo aluninho está sozinho em casa, sem a sua “turminha”, sem os amiguinhos que o incentivam, sem a figura da professora que, diferente da mãe ou do pai, se preparou para resolver os conflitos de aprendizagem.

Tenho ouvido pais e mães dizendo “não vejo a hora que meu filho volte para escola” e, antes de qualquer pré-julgamento, ouçamos suas razões: ele aprendia mais na escola; ele ficava mais calmo porque tinha com quem brincar; ele estava sempre alegre porque se divertia com os amigos; ele queria fazer as tarefas de casa para mostrar para a “Pro” (jeitinho lindo e carinhoso de se referirem àquela que lhes ensinava as letras e os números todos dias). Meu filho de 5 anos está em contagem regressiva para o dia de voltar para a escola. Será mesmo que estudar em casa faria bem a ele?

E para os grandes? Temos um caso de adolescente que estudou em casa e foi aprovada em uma das maiores universidades do país. Vamos falar sobre ela. No próximo capítulo desta novela brasileira.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Mãe: mulher, princesa, guerreira.

 Passado um dia da comemoração do dia das mães, quero falar dessa personalidade que habita nossos lares. Sejam as nossas mães, ou nós mesmas, presenciamos um misto de características nessas mulheres incríveis que se desdobram noite e dia para cumprirem seu papel.

Nascemos e nos dão bonecas, parece que nos querem mesmo mães. Crescemos e aprendemos que há muito mais que bonecas a brincar: bolas, jogos, carrinhos. Aprender a dirigir tem sido um sonho para muitas meninas aos 18 anos, que bom, estamos conquistando nosso espaço, sem imposições sociais. Já somos a maioria nos cursos superiores e, também, nas pesquisas científicas, conquistamos destaque.

Ser mulher na sociedade atual tem sido um desafio muito maior que no passado. Antes, sem direito de escolha, as mulheres aceitavam passivamente assumir o papel de esposa, dona de casa e mãe. Hoje, com todas as conquistas feministas, fazemos muitas escolhas, estudamos e, com excelência, desempenhamos nossas profissões.

Mas, quando a decisão é ser, também, mãe, tudo se acumula. Não deixamos de ser profissionais competentes quando temos filhos, mas assumimos jornada dupla, com muitas noites sem dormir, sem deixar o desempenho cair no trabalho.

Os filhos vão crescendo e nossas demandas junto: levar para escola, balé, futebol. Reaprender a brincar de boneca, ou se tornar um super-herói (e às vezes o vilão). Vestimos fantasias de princesas e de guerreiras intergalácticas. Aprendemos a fazer papinha e também lasanha (que nunca fica igual a da vó)e nos reinventamos todos os dias para desenvolver esse papel que nos demos na vida.

Querem-nos imbatíveis e indestrutíveis, mas não somos. Choramos, sofremos, sentimos dores. Muitas vezes sem verbalizar, porque não queremos nossos pequenos preocupados com nós. Tentamos ser mais fortes que podemos, superar limites, vencer desafios. Em geral cumprimos bem essas tarefas todas, contudo, preciso dizer, é necessário algumas vezes mostrar nossas fraquezas, pedir ajuda, permitir que nos ajudem.

Não precisamos ser mulheres-maravilha todos os dias, podemos ser só nós mesmas, cheias de defeitos, de dores, de cansaço. E, se alguém ousar nos cobrar por isso, sejamos amazonas suficientes para derrubar esse alguém e lhe dizer: te desafio a fazer melhor que eu.

Ser mãe, mulher, profissional e personagem das inúmeras invenções de nossos filhos já é mais do que qualquer outro ser conseguiria. Não se cobre, seja apenas você, mas cobre que te vejam como um ser frágil e indefeso, que quer uma mão, um colo e, acima de tudo, respeito.