Estudar em casa pode dar certo? Pode.
Não há dúvida. Mas para todos? Quando vamos à escola, temos professores
especialistas. Pessoas que passaram (e passam) anos estudando sobre o que e
como se deve ensinar em cada fase do desenvolvimento de um ser humano. Desde a
infância, quando não se sabe ler ou escrever, mas podem ter outras habilidades desenvolvidas,
algumas das quais, inclusive, serão fundamentais para o aprendizado da escrita;
até o término no ensino básico, quando, já crescidos e alfabetizados, são
expostos a diferentes conteúdos, com o propósito de lhes oferecer maiores
conhecimentos.
À medida que os alunos crescem,
passam a ter diferentes professores para diferentes disciplinas. Isso porque,
há séculos, percebeu-se que é mais produtivo quando um professor se especializa
em uma área do saber, do que quando ele é polivalente. Imagine as diferenças
impostas às aulas de matemática e língua portuguesa, como esperar que o mesmo
indivíduo domine todo o conjunto dessas duas áreas, a ponto de ensinar com maestria
para alunos de 14 ou 15 anos.
Não estou, é claro, duvidando da
capacidade de reter conhecimento de um adulto, que estudou por décadas os
diferentes assuntos, mas em como ele poderia ensinar para adolescentes tudo o
que é necessário para o seu desenvolvimento intelectual. A física precisa da matemática,
mas não se pode exigir domínio de ambas de um único indivíduo, são 4 anos de
ensino superior para cada uma dessas áreas, só para se ter um exemplo.
Existe um plano nacional que
determina o que se deve ensinar aos alunos em cada etapa do seu desenvolvimento,
que as escolas, há anos, classificam como séries. Vamos dar como aprovado o
homeschooling, quem ensinará todo esse conteúdo para as crianças e
adolescentes? Os pais? Ou pagarão professores particulares? (então vamos ter escolas
em casa?). Acreditem, quero defender o homeschooling, mas está difícil.
Vamos a um exemplo. O livro
Extraordinário, que gerou um filme homônimo, conta a história de um garoto que,
devido a uma deformidade crânio-facial, pratica o homeschooling até os 10 anos
(não vou me alongar nos detalhes, mas o livro vale capa página – o filme também).
Quando ele vai para escola, contrariando a expectativa dos demais alunos, ele mostra
que aprendeu muito mais em casa que aqueles que estavam na escola. Vejam,
trata-se de ficção, mas nos EUA o homeschooling é legalizado e praticado por
muitas famílias, e, de fato, muitas crianças aprendem muito em casa, talvez mais
do que se esperaria de uma escola, contudo, não se pode ignorar o fato de que a
mãe (na história de “Extraordinário”) parou de trabalhar e cessou sua pesquisa
universitária para se dedicar aos cuidados e à educação do garoto. É um caso de
familiar com conhecimentos suficientes para ensinar uma criança em casa. A pergunta
que não quer calar: todos os pais têm?
Saindo da ficção e avançando na
idade do estudante, temos o caso de uma adolescente, com 17 anos, da cidade de
Sorocaba, que não frequentou escola durante o ensino médio, estudou em casa e
foi aprovada em uma das mais concorridas universidades do Brasil. Para ela
funcionou. Funcionaria para todos os adolescentes de sua idade?
Sim, o homeschooling pode ser uma
opção, desde que muito bem regulamentada e fiscalizada. Quem ensinará as
crianças ou adolescentes? O que deverá ser aprendido em determinado período? E,
a meu ver, o mais importante: qual o propósito de se estudar em casa, sem o
convívio social tão importante para todas as pessoas, em especial, para as
crianças e os adolescentes?
Vimos há tempos falando sobre os
problemas causados pelo individualismo, mas será que essa prática de educação
em casa não aumentará essa problemática? E a tolerância? Vamos evitar o contato
com o diferente? Mas e tudo que aprendemos com as diferenças?
Temo, verdadeiramente, que a aprovação
do homeschooling no país seja mais uma forma de segregação. Pior, seja mais uma
desculpa para aumentar as desigualdades, se não houver regras muito claras para
que apenas estude em casa aqueles que, de fato, possuírem as condições
necessárias para garantir aprendizado justo. Mas isso também não seria
desigualdade?
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