quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A língua mais difícil de aprender

 

Estava eu dentro de um ônibus de turismo, com uma turma de 40 alunos do ensino médio, rumo a São Paulo para visitar o Museu da Língua Portuguesa e o Parque do Ibirapuera, quando a guia, que a agência nos enviou, perguntou: "Vocês sabiam que o Português é a língua mais difícil do mundo?” O silêncio tomou conta do espaço e todos os olhares daqueles ávidos estudantes se voltaram para mim.

Sem que qualquer palavra fosse proferia, eu sabia que estavam todos me dizendo: “Você não vai dizer nada??” Isso porque eu sempre defendo, nas primeiras aulas de gramática, que dizer que o português é a língua mais difícil não passa de um mito criado pelos próprios estudantes brasileiros. Não que seja fácil, há centenas de regras que precisamos aprender para escrever e falar de acordo com a norma padrão, mais culta, da língua. Contudo, qualquer criança, sem algum tipo de déficit de aprendizagem, chega na escola, aos 4 anos, dominando a língua. Qual o papel das aulas de português, então? Ensinar as estruturas da tal norma padrão e ampliar vocabulário.

Norma necessária para que os mais de 200 milhões de brasileiros possam falar a mesma língua. Apesar de sabermos haver muitas diferenças entre as regiões brasileiras, entre os estados e as cidades, não podemos negar que falamos o mesmo idioma, salvas algumas alterações vocabulares. Quando lemos documentos oficiais brasileiros, escritos de acordo com essa norma, não importa onde ele tenha sido escrito, todos podemos compreender; algumas vezes precisando da ajuda de alguém com maior grau de escolaridade. Ora, pois, as diferenças são muito mais de ordem normativa que de vocabulário. Poderíamos conversar por horas sobre isso, há teses de doutorado que fazem essas discussões, por ora, voltemos à dificuldade de se aprender português.

Claro que dei uma resposta para aquela moça, pautada em todos os meus estudos de linguística e, também, nos de outros idiomas que já estudei. Meus alunos falaram por meses sobre aquele incidente, acho até que passaram a me respeitar mais, pois viram a confiança que eu tenho nos estudos que já realizei e que continuo sempre realizando. Não quis ser grosseira, nem combina comigo, respeito o fato de aquela profissional não ter tido a oportunidade de aprender essa tão grande verdade sobre o ensino e a aprendizagem de línguas: não há uma mais fácil ou mais difícil. Respondi-lhe apenas: “Isso é apenas um mito. Todas as línguas têm certo grau de dificuldade, e com o português não é diferente. Mas, se fôssemos aprender o francês, por exemplo, veríamos que é tão difícil quando o português”.

A conversa se estendeu por grande parte da nossa ida até o destino e, para minha alegria (e talvez surpresa daquela guia turística), logo na primeira parada na visita monitorada dentro do Museu da Língua Portuguesa, nosso instrutor disse algo parecido com o que eu acabara de dizer dentro do ônibus. Não é verdade que o português seja a língua mais difícil. A ciência é fantástica, em todas as suas áreas, e negá-la não parece muito inteligente.

Recentemente, foi publicado um estudo do Departamento de Linguística Geral da Universidade de Tübingen, na Alemanha, que, após análises feitas por vários linguistas do mundo, a partir de 80 idiomas, defende que não há uma língua mais ou menos difícil, existem, sim, diferenças entre a complexidade do vocabulário ou das estruturas sintáticas – as frases. E o mesmo estudo aponta que esses dois itens são, de certa forma, compensados dentro de cada idioma. Existem mais de 6.000 línguas falada no mundo, claro que ainda há um mundo desconhecido, mas, estatisticamente falando, o estudo é confiável.

Já estudei algumas línguas, além do nosso amado português: inglês, espanhol, francês, italiano e, mais recentemente, alemão. O inglês foi o primeiro, difícil por ser a primeira experiência em outra língua, fácil quando entendi que houve um esforço daqueles povos para tornar a língua mais simples. Nas três línguas de origem latina (como o português) que estudei, vi inúmeras semelhanças com o nosso idioma, claro que ficou mais fácil, difícil mesmo é enriquecer o vocabulário, contudo, quanto mais estudo, menos sofrimento. Agora, alemão, vou dizer, se tem uma língua mais difícil de aprender pra mim, é sem dúvida essa. Mas não desisti, quem sabe um dia eu consiga falar e entender. Vielen Dank.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Falta tempo

Você também costuma ter a sensação de que sempre falta tempo? Eu sinto isso o tempo todo. Gostaria que o meu dia tivesse 30 horas, porque assim 6 horas seriam só minhas, para além de todas as obrigações diárias. Eu dormiria 2 horas a mais, passaria uma hora e meia na academia, faria muitos exercícios, eu leria durante 2 horas sem interrupções, acho que acabou tempo, e nem consegui incluir um artigo. O tempo que sobrou seria necessário para me deslocar de um lugar para outro. Veja,  6 horas a mais é muito pouco, e nós nem as temos... 

Isso significa que eu preciso encaixar essas atividades nas 24 horas diárias que nós temos. Missão quase impossível para mim, não sei para você, mas para mim, conseguir fazer essas atividades diariamente, além de todas as minhas obrigações, não tem sido muito fácil. Quero ser mãe e profissional ao mesmo tempo, isso demanda uma jornada infinita. 

Recentemente, conversando com uma pessoa mais jovem, ela disse que tem três turnos de trabalho. Trata-se de um professor: ele trabalha de manhã em uma escola, à tarde em outra e à noite em uma terceira, e essa rotina ele realiza quatro vezes por semana. Nossa, parece impossível, mas não é. Já tive uma rotina como essa, antes dos filhos nascerem, foi o que respondi. Foi então que uma terceira pessoa que participava da conversa, outra mãe/profissional, disse que também fazemos isso. 

Nesse momento, dei-me conta de que eu tenho 3 jornadas diárias, todos os dias e não apenas porque eu trabalhe em três lugares diferentes, mas, principalmente, porque eu sou mãe, sou profissional, sou dona de casa, sou esposa, e ainda devo lembrar que sou eu mesma. Preciso colocar todas as atividades desses cinco indivíduos que habitam em mim nas minhas 24 horas, sem esquecer da necessidade de dormir. Cansou? Só se você não fizer parte do mesmo time que eu.

Li um artigo esta semana, em que um médico defendia que devemos dormir pelo menos 7 horas por noite, eu juro que tento, porém nem sempre consigo. Quando percebo já se passaram das 23h e estou acordada, no outro dia às 5h30 eu estarei de pé, pronta pra começar novamente a minha jornada. Pra você é diferente? 

Lembrei-me, então, de uma crônica (de Drummond, talvez, não tenho certeza) em que a mulher se levanta e diz ao marido que vai se deitar, mas antes... ela faz tantas coisas antes de deitar-se que ele acaba indo primeiro e ainda questiona se ela não houvera dito que iria dormir. É bem assim, são tantos os afazeres que parece que temos pouco tempo pra tudo. E como vencer esse conflito? Já encontrou uma solução? Compartilhe, porque eu ainda sofro, pois falta tempo.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Educação 4.0

 


Há 14 meses a educação vem enfrentando mudanças urgentes, adaptações necessárias e alterando seu, secular, cenário: a sala de aula. Mudanças que eram necessárias há tempos, mas as quais ninguém estava disposto a fazer, por, ao menos, duas razões: mudar o que já se consolidou como bom é um desafio muito grande de mudança de paradigmas e, convenhamos, uma área que não gosta muito de mexer nesse terreno é a educação; por outro lado, trata-se de uma mudança que mexe, e muito, no bolso dos governos, em todas as suas instâncias, e está aí outro espaço em que o não-queremos-falar-disso prevalece.

Quem acompanha meus artigos já sabe que não sou favorável ao homeschooling (não que não queira, apenas não consigo), também tenho minhas ressalvas sobre educação à distância, porque temo que a disciplina necessária aos estudantes desta modalidade possa prejudicar seu rendimento, em especial quando pensamos na educação básica. Todavia, há um ano, nossas casas se tornaram um espaço (adequado ou não) de aula.

Ou seja, a ead chegou sem que nos preparássemos para ela, fomos obrigados a engolir essa modalidade do jeito que deu. E, preciso dar minha cara a bater, deu certo. Milhares de alunos da educação básica têm tido aulas remotas e com muita eficiência, em especial, porque escolas e professores se empenharam, mais do que podiam, para garantir que essas aulas acontecessem. Então podemos assumir essa forma de ensino de uma vez por todas?

Não. Não podemos porque, apesar da vantagem de se aprender sem o risco de contaminação, uma vez que estamos todos em casa, não podemos ignorar que a maioria dos estudantes brasileiros dessa faixa etária está nas escolas públicas e, infelizmente, sem aulas on-line.

A Unesco fala de um prejuízo de 2/3 do ano acadêmico, em razão as escolas fechadas. Aceitando que esse prejuízo é mais impactante entre os mais vulneráveis, não poderemos ignorar que aquela que existe para promover oportunidades mais igualitárias está, neste momento, prestando um desserviço à sociedade. A educação está promovendo a desigualdade, não que ela queira...

É certo e inquestionável que a preservação da saúde deve ser a prioridade de qualquer pessoa e, principalmente, de todos os governantes. Urge que vidas sejam salvas, que vacinas cheguem a toda a população, que se conscientizem as pessoas sobre a importância da prevenção, inclusive com o afastamento social, contudo, queremos saber: quando a educação será tratada como fundamental para a constituição de um país mais justo? Já é hora de investir em mudanças úteis e necessárias para que a educação de qualidade chegue a todos os alunos.

Não quero ficar lamentando o que se passou, fez-se o que era preciso para manter alunos, professores e familiares fora do risco de contaminação, mas já é tempo de olhar para a frente e pensar em políticas públicas que permitam oferecer o que os alunos precisam para ter acesso à educação de qualidade. Seja com aulas presenciais, respeitados os protocolos sanitários, seja com aulas on-line, garantindo aos alunos os recursos necessários para essa modalidade; seja preparando os pais para o suporte que as crianças menores necessitam. Enfim, é hora de permitir que alunos da rede pública e privada tenham, igualmente, acesso a uma boa educação, que lhes permita receber uma formação adequada para a vida, para a universidade, para o mercado de trabalho.

Ao contrário do que pregue o senso comum, o Brasil está entre os países que mais gastam com educação, de acordo com a OCDE (Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Talvez seja hora de olharmos, então, como esse investimento é gasto, redirecionar custos, investir melhor, como dizem os economistas.

É hora de toda a população lutar por essa educação de qualidade de que se fala há tanto tempo, independentemente de estarmos nas escolas públicas ou privadas. Melhorar a qualidade da educação significa formar melhor as pessoas para, quem sabe, tornar o mundo um lugar melhor. Eu acredito na educação.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Em casa ou na escola? Parte 2

 

Estudar em casa pode dar certo? Pode. Não há dúvida. Mas para todos? Quando vamos à escola, temos professores especialistas. Pessoas que passaram (e passam) anos estudando sobre o que e como se deve ensinar em cada fase do desenvolvimento de um ser humano. Desde a infância, quando não se sabe ler ou escrever, mas podem ter outras habilidades desenvolvidas, algumas das quais, inclusive, serão fundamentais para o aprendizado da escrita; até o término no ensino básico, quando, já crescidos e alfabetizados, são expostos a diferentes conteúdos, com o propósito de lhes oferecer maiores conhecimentos.

À medida que os alunos crescem, passam a ter diferentes professores para diferentes disciplinas. Isso porque, há séculos, percebeu-se que é mais produtivo quando um professor se especializa em uma área do saber, do que quando ele é polivalente. Imagine as diferenças impostas às aulas de matemática e língua portuguesa, como esperar que o mesmo indivíduo domine todo o conjunto dessas duas áreas, a ponto de ensinar com maestria para alunos de 14 ou 15 anos.

Não estou, é claro, duvidando da capacidade de reter conhecimento de um adulto, que estudou por décadas os diferentes assuntos, mas em como ele poderia ensinar para adolescentes tudo o que é necessário para o seu desenvolvimento intelectual. A física precisa da matemática, mas não se pode exigir domínio de ambas de um único indivíduo, são 4 anos de ensino superior para cada uma dessas áreas, só para se ter um exemplo.

Existe um plano nacional que determina o que se deve ensinar aos alunos em cada etapa do seu desenvolvimento, que as escolas, há anos, classificam como séries. Vamos dar como aprovado o homeschooling, quem ensinará todo esse conteúdo para as crianças e adolescentes? Os pais? Ou pagarão professores particulares? (então vamos ter escolas em casa?). Acreditem, quero defender o homeschooling, mas está difícil.

Vamos a um exemplo. O livro Extraordinário, que gerou um filme homônimo, conta a história de um garoto que, devido a uma deformidade crânio-facial, pratica o homeschooling até os 10 anos (não vou me alongar nos detalhes, mas o livro vale capa página – o filme também). Quando ele vai para escola, contrariando a expectativa dos demais alunos, ele mostra que aprendeu muito mais em casa que aqueles que estavam na escola. Vejam, trata-se de ficção, mas nos EUA o homeschooling é legalizado e praticado por muitas famílias, e, de fato, muitas crianças aprendem muito em casa, talvez mais do que se esperaria de uma escola, contudo, não se pode ignorar o fato de que a mãe (na história de “Extraordinário”) parou de trabalhar e cessou sua pesquisa universitária para se dedicar aos cuidados e à educação do garoto. É um caso de familiar com conhecimentos suficientes para ensinar uma criança em casa. A pergunta que não quer calar: todos os pais têm?

Saindo da ficção e avançando na idade do estudante, temos o caso de uma adolescente, com 17 anos, da cidade de Sorocaba, que não frequentou escola durante o ensino médio, estudou em casa e foi aprovada em uma das mais concorridas universidades do Brasil. Para ela funcionou. Funcionaria para todos os adolescentes de sua idade?

Sim, o homeschooling pode ser uma opção, desde que muito bem regulamentada e fiscalizada. Quem ensinará as crianças ou adolescentes? O que deverá ser aprendido em determinado período? E, a meu ver, o mais importante: qual o propósito de se estudar em casa, sem o convívio social tão importante para todas as pessoas, em especial, para as crianças e os adolescentes?

Vimos há tempos falando sobre os problemas causados pelo individualismo, mas será que essa prática de educação em casa não aumentará essa problemática? E a tolerância? Vamos evitar o contato com o diferente? Mas e tudo que aprendemos com as diferenças?

Temo, verdadeiramente, que a aprovação do homeschooling no país seja mais uma forma de segregação. Pior, seja mais uma desculpa para aumentar as desigualdades, se não houver regras muito claras para que apenas estude em casa aqueles que, de fato, possuírem as condições necessárias para garantir aprendizado justo. Mas isso também não seria desigualdade?

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Em casa ou na escola? Parte 1

Volta ao cenário nacional a discussão sobre a validade do homeschooling, termo inglês para se referir ao método de aprendizagem realizado em casa, sem frequência escolar. Desde o início do atual governo federal, discute-se a possibilidade da liberação para que pais possam ensinar conteúdos escolares a seus filhos em casa. E, obviamente, as opiniões se dividem. Mas, não se trata, apenas, de uma questão de opinião pessoal, mas de se analisar benefícios e desvantagens desse método de educação.

Gosto do ditado que diz que “em time que está ganhando não se deve mexer”, contudo, gosto ainda mais do que defende Eráclito, filósofo grego que viveu no século V a. C., ao dizer que “não se pode um homem banhar-se duas vezes no mesmo rio”: primeiro porque as águas passam, mudam; segundo, porque o homem se transforma o tempo todo. Olhando assim, mudar o que se consolidou, há séculos, como a principal instituição de ensino parece bastante aceitável, no entanto, não é à toa que a escola tornou-se essa referência, uma vez que até não muito longe a educação era realizada em casa, em especial para as meninas, que não podiam frequentar as primeiras unidades escolares.

Estamos então diante de uma questão muito delicada: é bom ou não é o homeschooling? E mais: é bom ou não é ir para uma escola regular?

Pensemos nas vantagens do homeschooling: você estuda na sua casa, no melhor horário para você e ainda pode escolher o que e quando vai estudar. Isso parece bom. Mas não é exatamente contra isso que estamos lutando nesse período de pandemia? Tem sido fácil ter os filhos em casa, tendo aulas no horário que cabe na agenda dos pais? Tem sido produtivo?

Há incontáveis pais e mães reclamando porque não conseguem acompanhar os estudos dos filhos em casa, por diversas razões: horários se chocam com os do trabalho, reuniões surgem e atrapalham o cronograma pensado, a criança não dá a atenção que (o pai ou mãe acha que) deveria aos estudos, a criança de distrai facilmente, os pais desconhecem as metodologias atuais e, por isso, têm dificuldade para ajudar os filhos.

Claro que essas são situações que afetam com maior impacto as crianças menores, a partir de determinada idade eles ganham autonomia e já não recorrem mais aos pais, viram-se como podem. E esse “viram-se” está sendo suficiente para garantir aprendizagem?

Você pode estar pesando que eu só olho a parte ruim. Então vamos olhar a parte boa: há crianças que se adaptaram muito bem às aulas em casa (on-line ou não), cujos pais têm grande facilidade com a pedagogia infantil e também com os conteúdos a serem ensinados, sem contar que a criança tem uma atenção fabulosa para as aulas.

Não se trata de utopia, mas de realidade. Há, de fato, a presença desse contexto lindo em vários lares brasileiros, pena que eles são a minoria.

Ao conversar com professores das redes pública e privada, ouvimos relatos de pais que não conseguem garantir que os filhos realizem as tarefas, e essa tem sido a regra, não a exceção. Infelizmente, o número de pais que não estão conseguindo conduzir as aulas de seus filhos neste momento é extremamente grande. E, novamente, não pretendo julgar pais ou professores, quero apenas abrir uma reflexão sobre quanto a educação realizada em casa será mesmo eficiente.

E, caro leitor, precisamos, ainda, refletir sobre o maior prejuízo deste período para os alunos, de todas as idades: falta a interação social. Convencer um aluninho de 5 anos a realizar as tarefas junto com os coleguinhas, quando todos estão fazendo a mesma coisa, é infinitamente mais fácil que quando esse mesmo aluninho está sozinho em casa, sem a sua “turminha”, sem os amiguinhos que o incentivam, sem a figura da professora que, diferente da mãe ou do pai, se preparou para resolver os conflitos de aprendizagem.

Tenho ouvido pais e mães dizendo “não vejo a hora que meu filho volte para escola” e, antes de qualquer pré-julgamento, ouçamos suas razões: ele aprendia mais na escola; ele ficava mais calmo porque tinha com quem brincar; ele estava sempre alegre porque se divertia com os amigos; ele queria fazer as tarefas de casa para mostrar para a “Pro” (jeitinho lindo e carinhoso de se referirem àquela que lhes ensinava as letras e os números todos dias). Meu filho de 5 anos está em contagem regressiva para o dia de voltar para a escola. Será mesmo que estudar em casa faria bem a ele?

E para os grandes? Temos um caso de adolescente que estudou em casa e foi aprovada em uma das maiores universidades do país. Vamos falar sobre ela. No próximo capítulo desta novela brasileira.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Mãe: mulher, princesa, guerreira.

 Passado um dia da comemoração do dia das mães, quero falar dessa personalidade que habita nossos lares. Sejam as nossas mães, ou nós mesmas, presenciamos um misto de características nessas mulheres incríveis que se desdobram noite e dia para cumprirem seu papel.

Nascemos e nos dão bonecas, parece que nos querem mesmo mães. Crescemos e aprendemos que há muito mais que bonecas a brincar: bolas, jogos, carrinhos. Aprender a dirigir tem sido um sonho para muitas meninas aos 18 anos, que bom, estamos conquistando nosso espaço, sem imposições sociais. Já somos a maioria nos cursos superiores e, também, nas pesquisas científicas, conquistamos destaque.

Ser mulher na sociedade atual tem sido um desafio muito maior que no passado. Antes, sem direito de escolha, as mulheres aceitavam passivamente assumir o papel de esposa, dona de casa e mãe. Hoje, com todas as conquistas feministas, fazemos muitas escolhas, estudamos e, com excelência, desempenhamos nossas profissões.

Mas, quando a decisão é ser, também, mãe, tudo se acumula. Não deixamos de ser profissionais competentes quando temos filhos, mas assumimos jornada dupla, com muitas noites sem dormir, sem deixar o desempenho cair no trabalho.

Os filhos vão crescendo e nossas demandas junto: levar para escola, balé, futebol. Reaprender a brincar de boneca, ou se tornar um super-herói (e às vezes o vilão). Vestimos fantasias de princesas e de guerreiras intergalácticas. Aprendemos a fazer papinha e também lasanha (que nunca fica igual a da vó)e nos reinventamos todos os dias para desenvolver esse papel que nos demos na vida.

Querem-nos imbatíveis e indestrutíveis, mas não somos. Choramos, sofremos, sentimos dores. Muitas vezes sem verbalizar, porque não queremos nossos pequenos preocupados com nós. Tentamos ser mais fortes que podemos, superar limites, vencer desafios. Em geral cumprimos bem essas tarefas todas, contudo, preciso dizer, é necessário algumas vezes mostrar nossas fraquezas, pedir ajuda, permitir que nos ajudem.

Não precisamos ser mulheres-maravilha todos os dias, podemos ser só nós mesmas, cheias de defeitos, de dores, de cansaço. E, se alguém ousar nos cobrar por isso, sejamos amazonas suficientes para derrubar esse alguém e lhe dizer: te desafio a fazer melhor que eu.

Ser mãe, mulher, profissional e personagem das inúmeras invenções de nossos filhos já é mais do que qualquer outro ser conseguiria. Não se cobre, seja apenas você, mas cobre que te vejam como um ser frágil e indefeso, que quer uma mão, um colo e, acima de tudo, respeito.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

(des)Conecte-se

Você já viu aquela cena em que estão na sala, pai, mãe, filhos e cachorro, cada um com seu respectivo dispositivo eletrônico? E aquela em que há vários amigos ao redor de uma mesa, dentro de um bar, cada qual com seu aparelho celular, conversando ou “teclando” com outrem que não esteja presente? E, ainda, aquela em que marido e mulher encontram-se na cama,  e cada um olha e sorri para seu respectivo smartfone? Se alguma dessas cenas lhe parece familiar, talvez você esteja precisando desconectar-se.
Não me entendam mal! Não sou contra qualquer modernidade tecnológica, ao contrário, sou fã incondicional da tecnologia! Acho incrível como alguém conseguiu permitir que eu seja capaz de, com um clique, falar com alguém que está do outro lado do oceano, olhando para ele, através de um aparelho que cabe em minhas mãos (lembro-me de Speed Racer, e aquilo parecia impossível há algumas décadas...). Mas tenho a sensação de que deixamos esses eletrônicos dominarem nossas vidas.
Tenho observado, cada vez mais, uma dependência generalizada nesses dispositivos, qualquer que seja o lugar onde se esteja há sempre alguém utilizando um smarfone enquanto outras pessoas estão ao seu redor, sendo ignoradas. E, algumas vezes, essa pessoa sou eu... Em ambas as situações (o que mais me incomoda). Já me vi, confesso, dando mais atenção para o meu celular do que para alguém com que eu esteja, e isso tem me deixado preocupada. Até que ponto, realmente, precisamos desses aparelhos ao nosso lado em período integral? Você já se fez essa pergunta? Eu já, e estou me convencendo de que a resposta é: pouco; talvez, quase nada.
Estudos comprovam que a maioria das pessoas só consegue se concentrar em uma atividade por vez (e são pessoas absolutamente normais), o que significa que, quando tentamos falar pelo Whats ao mesmo tempo que ouvimos o que um amigo nos diz, um dos dois não terá nossa plena atenção: ou ignoramos parte da conversa virtual, ou parte da presencial. Uso-me, mais uma vez, como exemplo: sou do tipo que faz várias coisas ao mesmo tempo, e sempre justifico com a célebre frase “sou mulher”, mas admito: quando o assunto é importante, ouço apenas um! Sou capaz de pedir para quem está próximo, tentando falar comigo, que espere um pouco até eu concluir um email, antes que possa ouvi-lo, pois, caso contrário, perderei parte do que for dito. O que isso significa? Sou normal! E, por isso, só consigo fazer uma atividade por vez, ser mulher não me garante poderes especiais (embora às vezes eu os deseje...).
Agora, fico me perguntando quanto de uma aula é capaz de reter um garoto de 16 anos que, enquanto ouve (supostamente) o que diz o professor, troca mensagens com outrem (sabe-se-lá-quem) usando um de seus dispositivos eletrônicos. Será mesmo que ele consegue compreender o conteúdo de uma aula nessas condições? E, então, elaborei duas hipóteses: primeira, sua geração sofreu uma mutação genética, graças ao processo adaptativo da espécie humana (os dedos deles digitam no celular muito mais rápido que os meus), e, sim, ele é capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo; segunda, ele perdeu parte do que o professor explicou, afinal, a mensagem eletrônica era muito mais interessante.
Se a primeira hipótese se confirmar, ótimo, estamos formando gênios. Caso contrário, estamos formando alunos despreparados, porque perderam parte significativa dos conteúdos ensinados na escola.

Se houver alguém imaginando que meu desejo seja que todos se desconectem, errou. Desejo apenas que saibamos o momento adequado de se conectar, mas também de desconectar-se. Quantas descobertas incrivelmente maravilhosas tornaram-se possíveis antes que os smartfones fossem inventados? Quantas festas incríveis aconteceram antes da internet? Quantos amigos compartilharam bons momentos antes que as redes sociais passassem a existir? Muitos de nós nascemos porque houve um breve momento íntimo, sem que fosse necessário um dispositivo tecnológico (e outros graças à tecnologia médica, mas principalmente, em virtude do desejo de duas pessoas tornarem seu amor visível). Acreditemos: podemos desligar por algumas horas nossos celulares e nossas vidas correrão normalmente, aliás, talvez com mais qualidade.