quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A língua mais difícil de aprender

 

Estava eu dentro de um ônibus de turismo, com uma turma de 40 alunos do ensino médio, rumo a São Paulo para visitar o Museu da Língua Portuguesa e o Parque do Ibirapuera, quando a guia, que a agência nos enviou, perguntou: "Vocês sabiam que o Português é a língua mais difícil do mundo?” O silêncio tomou conta do espaço e todos os olhares daqueles ávidos estudantes se voltaram para mim.

Sem que qualquer palavra fosse proferia, eu sabia que estavam todos me dizendo: “Você não vai dizer nada??” Isso porque eu sempre defendo, nas primeiras aulas de gramática, que dizer que o português é a língua mais difícil não passa de um mito criado pelos próprios estudantes brasileiros. Não que seja fácil, há centenas de regras que precisamos aprender para escrever e falar de acordo com a norma padrão, mais culta, da língua. Contudo, qualquer criança, sem algum tipo de déficit de aprendizagem, chega na escola, aos 4 anos, dominando a língua. Qual o papel das aulas de português, então? Ensinar as estruturas da tal norma padrão e ampliar vocabulário.

Norma necessária para que os mais de 200 milhões de brasileiros possam falar a mesma língua. Apesar de sabermos haver muitas diferenças entre as regiões brasileiras, entre os estados e as cidades, não podemos negar que falamos o mesmo idioma, salvas algumas alterações vocabulares. Quando lemos documentos oficiais brasileiros, escritos de acordo com essa norma, não importa onde ele tenha sido escrito, todos podemos compreender; algumas vezes precisando da ajuda de alguém com maior grau de escolaridade. Ora, pois, as diferenças são muito mais de ordem normativa que de vocabulário. Poderíamos conversar por horas sobre isso, há teses de doutorado que fazem essas discussões, por ora, voltemos à dificuldade de se aprender português.

Claro que dei uma resposta para aquela moça, pautada em todos os meus estudos de linguística e, também, nos de outros idiomas que já estudei. Meus alunos falaram por meses sobre aquele incidente, acho até que passaram a me respeitar mais, pois viram a confiança que eu tenho nos estudos que já realizei e que continuo sempre realizando. Não quis ser grosseira, nem combina comigo, respeito o fato de aquela profissional não ter tido a oportunidade de aprender essa tão grande verdade sobre o ensino e a aprendizagem de línguas: não há uma mais fácil ou mais difícil. Respondi-lhe apenas: “Isso é apenas um mito. Todas as línguas têm certo grau de dificuldade, e com o português não é diferente. Mas, se fôssemos aprender o francês, por exemplo, veríamos que é tão difícil quando o português”.

A conversa se estendeu por grande parte da nossa ida até o destino e, para minha alegria (e talvez surpresa daquela guia turística), logo na primeira parada na visita monitorada dentro do Museu da Língua Portuguesa, nosso instrutor disse algo parecido com o que eu acabara de dizer dentro do ônibus. Não é verdade que o português seja a língua mais difícil. A ciência é fantástica, em todas as suas áreas, e negá-la não parece muito inteligente.

Recentemente, foi publicado um estudo do Departamento de Linguística Geral da Universidade de Tübingen, na Alemanha, que, após análises feitas por vários linguistas do mundo, a partir de 80 idiomas, defende que não há uma língua mais ou menos difícil, existem, sim, diferenças entre a complexidade do vocabulário ou das estruturas sintáticas – as frases. E o mesmo estudo aponta que esses dois itens são, de certa forma, compensados dentro de cada idioma. Existem mais de 6.000 línguas falada no mundo, claro que ainda há um mundo desconhecido, mas, estatisticamente falando, o estudo é confiável.

Já estudei algumas línguas, além do nosso amado português: inglês, espanhol, francês, italiano e, mais recentemente, alemão. O inglês foi o primeiro, difícil por ser a primeira experiência em outra língua, fácil quando entendi que houve um esforço daqueles povos para tornar a língua mais simples. Nas três línguas de origem latina (como o português) que estudei, vi inúmeras semelhanças com o nosso idioma, claro que ficou mais fácil, difícil mesmo é enriquecer o vocabulário, contudo, quanto mais estudo, menos sofrimento. Agora, alemão, vou dizer, se tem uma língua mais difícil de aprender pra mim, é sem dúvida essa. Mas não desisti, quem sabe um dia eu consiga falar e entender. Vielen Dank.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Falta tempo

Você também costuma ter a sensação de que sempre falta tempo? Eu sinto isso o tempo todo. Gostaria que o meu dia tivesse 30 horas, porque assim 6 horas seriam só minhas, para além de todas as obrigações diárias. Eu dormiria 2 horas a mais, passaria uma hora e meia na academia, faria muitos exercícios, eu leria durante 2 horas sem interrupções, acho que acabou tempo, e nem consegui incluir um artigo. O tempo que sobrou seria necessário para me deslocar de um lugar para outro. Veja,  6 horas a mais é muito pouco, e nós nem as temos... 

Isso significa que eu preciso encaixar essas atividades nas 24 horas diárias que nós temos. Missão quase impossível para mim, não sei para você, mas para mim, conseguir fazer essas atividades diariamente, além de todas as minhas obrigações, não tem sido muito fácil. Quero ser mãe e profissional ao mesmo tempo, isso demanda uma jornada infinita. 

Recentemente, conversando com uma pessoa mais jovem, ela disse que tem três turnos de trabalho. Trata-se de um professor: ele trabalha de manhã em uma escola, à tarde em outra e à noite em uma terceira, e essa rotina ele realiza quatro vezes por semana. Nossa, parece impossível, mas não é. Já tive uma rotina como essa, antes dos filhos nascerem, foi o que respondi. Foi então que uma terceira pessoa que participava da conversa, outra mãe/profissional, disse que também fazemos isso. 

Nesse momento, dei-me conta de que eu tenho 3 jornadas diárias, todos os dias e não apenas porque eu trabalhe em três lugares diferentes, mas, principalmente, porque eu sou mãe, sou profissional, sou dona de casa, sou esposa, e ainda devo lembrar que sou eu mesma. Preciso colocar todas as atividades desses cinco indivíduos que habitam em mim nas minhas 24 horas, sem esquecer da necessidade de dormir. Cansou? Só se você não fizer parte do mesmo time que eu.

Li um artigo esta semana, em que um médico defendia que devemos dormir pelo menos 7 horas por noite, eu juro que tento, porém nem sempre consigo. Quando percebo já se passaram das 23h e estou acordada, no outro dia às 5h30 eu estarei de pé, pronta pra começar novamente a minha jornada. Pra você é diferente? 

Lembrei-me, então, de uma crônica (de Drummond, talvez, não tenho certeza) em que a mulher se levanta e diz ao marido que vai se deitar, mas antes... ela faz tantas coisas antes de deitar-se que ele acaba indo primeiro e ainda questiona se ela não houvera dito que iria dormir. É bem assim, são tantos os afazeres que parece que temos pouco tempo pra tudo. E como vencer esse conflito? Já encontrou uma solução? Compartilhe, porque eu ainda sofro, pois falta tempo.