Estava eu dentro de um ônibus de turismo, com uma turma de
40 alunos do ensino médio, rumo a São Paulo para visitar o Museu da Língua
Portuguesa e o Parque do Ibirapuera, quando a guia, que a agência nos enviou,
perguntou: "Vocês sabiam que o Português é a língua mais difícil do
mundo?” O silêncio tomou conta do espaço e todos os olhares daqueles ávidos
estudantes se voltaram para mim.
Sem que qualquer palavra fosse proferia, eu sabia que
estavam todos me dizendo: “Você não vai dizer nada??” Isso porque eu sempre defendo,
nas primeiras aulas de gramática, que dizer que o português é a língua mais
difícil não passa de um mito criado pelos próprios estudantes brasileiros. Não que
seja fácil, há centenas de regras que precisamos aprender para escrever e
falar de acordo com a norma padrão, mais culta, da língua. Contudo, qualquer
criança, sem algum tipo de déficit de aprendizagem, chega na escola, aos 4
anos, dominando a língua. Qual o papel das aulas de português, então? Ensinar
as estruturas da tal norma padrão e ampliar vocabulário.
Norma necessária para que os mais de 200 milhões de
brasileiros possam falar a mesma língua. Apesar de sabermos haver muitas
diferenças entre as regiões brasileiras, entre os estados e as cidades, não
podemos negar que falamos o mesmo idioma, salvas algumas alterações vocabulares.
Quando lemos documentos oficiais brasileiros, escritos de acordo com essa
norma, não importa onde ele tenha sido escrito, todos podemos compreender;
algumas vezes precisando da ajuda de alguém com maior grau de escolaridade. Ora,
pois, as diferenças são muito mais de ordem normativa que de vocabulário. Poderíamos
conversar por horas sobre isso, há teses de doutorado que fazem essas
discussões, por ora, voltemos à dificuldade de se aprender português.
Claro que dei uma resposta para aquela moça, pautada em
todos os meus estudos de linguística e, também, nos de outros idiomas que já
estudei. Meus alunos falaram por meses sobre aquele incidente, acho até que
passaram a me respeitar mais, pois viram a confiança que eu tenho nos estudos
que já realizei e que continuo sempre realizando. Não quis ser grosseira, nem
combina comigo, respeito o fato de aquela profissional não ter tido a
oportunidade de aprender essa tão grande verdade sobre o ensino e a aprendizagem
de línguas: não há uma mais fácil ou mais difícil. Respondi-lhe apenas: “Isso é
apenas um mito. Todas as línguas têm certo grau de dificuldade, e com o
português não é diferente. Mas, se fôssemos aprender o francês, por exemplo, veríamos
que é tão difícil quando o português”.
A conversa se estendeu por grande parte da nossa ida até o
destino e, para minha alegria (e talvez surpresa daquela guia turística), logo
na primeira parada na visita monitorada dentro do Museu da Língua Portuguesa, nosso
instrutor disse algo parecido com o que eu acabara de dizer dentro do ônibus.
Não é verdade que o português seja a língua mais difícil. A ciência é
fantástica, em todas as suas áreas, e negá-la não parece muito inteligente.
Recentemente, foi publicado um estudo do Departamento de
Linguística Geral da Universidade de Tübingen, na Alemanha, que, após análises
feitas por vários linguistas do mundo, a partir de 80 idiomas, defende que não há
uma língua mais ou menos difícil, existem, sim, diferenças entre a complexidade
do vocabulário ou das estruturas sintáticas – as frases. E o mesmo estudo
aponta que esses dois itens são, de certa forma, compensados dentro de cada idioma.
Existem mais de 6.000 línguas falada no mundo, claro que ainda há um mundo
desconhecido, mas, estatisticamente falando, o estudo é confiável.
Já estudei algumas línguas, além do nosso amado português: inglês,
espanhol, francês, italiano e, mais recentemente, alemão. O inglês foi o
primeiro, difícil por ser a primeira experiência em outra língua, fácil quando
entendi que houve um esforço daqueles povos para tornar a língua mais simples. Nas
três línguas de origem latina (como o português) que estudei, vi inúmeras
semelhanças com o nosso idioma, claro que ficou mais fácil, difícil mesmo é enriquecer
o vocabulário, contudo, quanto mais estudo, menos sofrimento. Agora, alemão,
vou dizer, se tem uma língua mais difícil de aprender pra mim, é sem dúvida
essa. Mas não desisti, quem sabe um dia eu consiga falar e entender. Vielen Dank.
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