Volta ao cenário nacional a discussão sobre a validade do homeschooling, termo inglês para se referir ao método de aprendizagem realizado em casa, sem frequência escolar. Desde o início do atual governo federal, discute-se a possibilidade da liberação para que pais possam ensinar conteúdos escolares a seus filhos em casa. E, obviamente, as opiniões se dividem. Mas, não se trata, apenas, de uma questão de opinião pessoal, mas de se analisar benefícios e desvantagens desse método de educação.
Gosto do ditado que diz que “em time
que está ganhando não se deve mexer”, contudo, gosto ainda mais do que defende
Eráclito, filósofo grego que viveu no século V a. C., ao dizer que “não se pode
um homem banhar-se duas vezes no mesmo rio”: primeiro porque as águas passam,
mudam; segundo, porque o homem se transforma o tempo todo. Olhando assim, mudar
o que se consolidou, há séculos, como a principal instituição de ensino parece
bastante aceitável, no entanto, não é à toa que a escola tornou-se essa
referência, uma vez que até não muito longe a educação era realizada em casa,
em especial para as meninas, que não podiam frequentar as primeiras unidades
escolares.
Estamos então diante de uma
questão muito delicada: é bom ou não é o homeschooling? E mais: é bom ou não é
ir para uma escola regular?
Pensemos nas vantagens do
homeschooling: você estuda na sua casa, no melhor horário para você e ainda
pode escolher o que e quando vai estudar. Isso parece bom. Mas não é exatamente
contra isso que estamos lutando nesse período de pandemia? Tem sido fácil ter
os filhos em casa, tendo aulas no horário que cabe na agenda dos pais? Tem sido
produtivo?
Há incontáveis pais e mães reclamando
porque não conseguem acompanhar os estudos dos filhos em casa, por diversas
razões: horários se chocam com os do trabalho, reuniões surgem e atrapalham o
cronograma pensado, a criança não dá a atenção que (o pai ou mãe acha que)
deveria aos estudos, a criança de distrai facilmente, os pais desconhecem as
metodologias atuais e, por isso, têm dificuldade para ajudar os filhos.
Claro que essas são situações que
afetam com maior impacto as crianças menores, a partir de determinada idade
eles ganham autonomia e já não recorrem mais aos pais, viram-se como podem. E esse
“viram-se” está sendo suficiente para garantir aprendizagem?
Você pode estar pesando que eu só
olho a parte ruim. Então vamos olhar a parte boa: há crianças que se adaptaram
muito bem às aulas em casa (on-line ou não), cujos pais têm grande facilidade
com a pedagogia infantil e também com os conteúdos a serem ensinados, sem
contar que a criança tem uma atenção fabulosa para as aulas.
Não se trata de utopia, mas de realidade.
Há, de fato, a presença desse contexto lindo em vários lares brasileiros, pena
que eles são a minoria.
Ao conversar com professores das
redes pública e privada, ouvimos relatos de pais que não conseguem garantir que
os filhos realizem as tarefas, e essa tem sido a regra, não a exceção. Infelizmente,
o número de pais que não estão conseguindo conduzir as aulas de seus filhos
neste momento é extremamente grande. E, novamente, não pretendo julgar pais ou
professores, quero apenas abrir uma reflexão sobre quanto a educação realizada
em casa será mesmo eficiente.
E, caro leitor, precisamos,
ainda, refletir sobre o maior prejuízo deste período para os alunos, de todas
as idades: falta a interação social. Convencer um aluninho de 5 anos a realizar
as tarefas junto com os coleguinhas, quando todos estão fazendo a mesma coisa,
é infinitamente mais fácil que quando esse mesmo aluninho está sozinho em casa,
sem a sua “turminha”, sem os amiguinhos que o incentivam, sem a figura da
professora que, diferente da mãe ou do pai, se preparou para resolver os
conflitos de aprendizagem.
Tenho ouvido pais e mães dizendo “não
vejo a hora que meu filho volte para escola” e, antes de qualquer pré-julgamento,
ouçamos suas razões: ele aprendia mais na escola; ele ficava mais calmo porque
tinha com quem brincar; ele estava sempre alegre porque se divertia com os
amigos; ele queria fazer as tarefas de casa para mostrar para a “Pro” (jeitinho
lindo e carinhoso de se referirem àquela que lhes ensinava as letras e os
números todos dias). Meu filho de 5 anos está em contagem regressiva para o dia
de voltar para a escola. Será mesmo que estudar em casa faria bem a ele?
E para os grandes? Temos um caso
de adolescente que estudou em casa e foi aprovada em uma das maiores universidades
do país. Vamos falar sobre ela. No próximo capítulo desta novela brasileira.
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