terça-feira, 25 de março de 2014

Os príncipes existem (parte IX)


Uma revelação


Chegaram à igreja e lá estava Paula, junto com Mariane e Luisa. Anna quis aproximar-se, mas viu os pais e precisava dizer que havia chegado. Quando voltou para o fundo da igreja, já não viu Paula, mas percebeu que Mariane queria dizer-lhe algo, pois aproximou-se e falou baixinho.
- Como foi ontem?
- Muito bom. – foi tudo que Anna teve coragem de dizer.
- A Paula está uma fera! – revelou a amiga.
- Ãh? – mais nada saiu da boca de Anna, que naquele instante acabara de sentir uma mão em seu braço.
Olhando para o altar, só percebeu a chegada de Gabriel quando este lhe tocou o braço com suavidade. Ouviu seu “boa noite” como quem ouve as vozes de anjos. Sentiu seu corpo todo estremecer. Como era possível que a simples presença daquele garoto mexesse tanto com seus sentimentos? Era o que Anna pensava. Ficou observando aquela aparição que se colocou a seu lado. Sentia seu perfume, sua presença. Ele estava usando calça social marinho e camisa de mangas longas salmão. Era novamente a visão de um deus grego, parado bem ao seu lado, e a menina não sabia se para sua alegria ou desespero.
Quando finalmente se recompôs, olhou para Mariane, que nesse instante falava com Julia e perguntou.
- Por quê?
- Porque ela descobriu que a garota de que o Gabriel falava era você. – respondeu Mariane como quem tem um troféu a ser entregue.
- Eu não estou entendendo... – Anna estava perplexa. Eram muitas informações em pouco tempo.
-A gente achou que ela tinha saído com... – erguendo as sobrancelhas apontou Gabriel que estava parado bem próximo delas, junto de alguns amigos – ele... – e continuou com a voz mais baixa que poderia criar – mas acho melhor você perguntar para ele o que acontece...
- Não! Me conta logo! – Insistiu Anna, em vão, pois a amiga apenas fez um sinal com o dedo.
- Psiu. A missa.
Anna mal podia esperar o fim da celebração para saber mais detalhes de tudo aquilo que fervia em sua mente. Fez o possível para prestar atenção ao que o celebrante dizia, mas não foi nada fácil. Somente na hora da preparação das ofertas é que conseguiu começar a ouvir o que o padre dizia. Haja fé para tantas emoções...
Ao final da missa, seus pais se aproximaram perguntando se ela iria com eles ou ficaria com os amigos. Anna procurava por Gabriel sem saber se deveria ou não encontrá-lo. Eram tantas as perguntas, as dúvidas, mas era preciso que tudo se esclarecessem, fosse qual fosse o desfecho daquela história. Se tinha uma coisa que Anna repudiava era conversa pela metade, assunto sem explicação.
Antes, porém, que decidisse o que dizer aos pais, Gabriel se aproximou e cumprimentou o pai de Anna.
- Boa noite. Gabriel, muito prazer.
O pai aceitou a mão que se estendia a sua frente e respondeu algo que Anna não ouviu, mas deduziu que tivesse sido seu nome e um “prazer”.
O mesmo se passou com a mãe e o irmão caçula.
- Será que eu poderia levar a Anna pra jantar? Eu prometo que a levo de volta pra casa cedo. – Pediu, Gabriel, dirigindo ao pai de Anna, que não sabia o que responder àquele jovem educado que pedia permissão para levar sua filha a um passeio. Lembrou-se dos relatos que ela fizera durante todo o domingo e consentiu com a cabeça, acrescentando com uma piscada para a filha.
- Cuide bem do meu tesouro.
- Pode ter certeza que sim. – foi a resposta de Gabriel olhando para Anna.
Os pais despediram-se da garota e saíram, enquanto Gabriel conduziu Anna até seu carro, estacionado bem próximo à entrada da igreja.
Ajudou-a entrar no carro, como fizera na véspera. Depois deu a volta e assumiu o volante.
- Dirige?
- Dirijo.
- Se eu não for bom motorista, pode dizer, estou aberto às críticas em favor de meu melhor desempenho.
Anna queria dizer algo, mas as palavras lhe faltaram, limitou-se, pois, a rir da brincadeira.
- Você se importa se nós formos a um lugar diferente do que seus amigos vão? É que eu gostaria de conversar mais com você, só nós dois – disparou Gabriel depois de dirigir por duas quadras. – Acho que temos muito que saber um do outro e acho que com outras pessoas conhecidas por perto não vamos conseguir. Tudo bem?
- Ahã... – Anna precisava perguntar, mas como?
- Gosta de comida Italiana?
- Minha avó é italiana. Tudo que ela faz é divino... Adoro lasanha, capelette, pizza...
- Quer comer uma pizza?
- Quero! – Era melhor que fosse algo comum, Anna temia que Gabriel fosse o tipo que faz cerimônia para comer, e ela não se sentia pronta para um evento, queria apenas conversar e saber se poderia ou não continuar julgando-o seu príncipe-tão-esperado.
- Eu conheço o lugar perfeito! Cantina Della Nonna, conhece?
- Sim, mas nunca fui lá, parece tão formal. – Foi a resposta de Anna ao convite.
- Não é, você vai gostar. – Garantiu, ele.
O restaurante não ficava longe. Cerca de vinte minutos e estariam lá. Então Anna disparou a pergunta.
- Você conhece a Paula, que frequenta o grupo?
- Estudamos juntos.
- Vocês costumam se encontrar? Conversam? – os pensamentos de Anna estavam perdidos, ela não sabia se devia ter dito ou ficado em silêncio. Naquele momento se arrependera de sua pergunta. Mas já era tarde. Como se explicar? O que dizer? “Pensa logo, Anna, pensa!!!!” – É que me disseram que vocês saíram juntos do encontro na semana passada.
- Entendi... – foi a resposta de Gabriel, interrompida por Anna.
- Não entenda como uma cobrança, nem tenho esse direito, é que...
- Anna, pare de se desculpar. A Paula mora perto da minha casa, era caminho pra mim, não custava dar uma carona. Além do mais, achei que ela fosse mais sua amiga, eu queria saber mais de você...
- Como? – Anna começara a tremer. O que estava acontecendo? O que significaria tudo aquilo?
- Eu fui ao encontro naquele sábado – continuou Gabriel – pra te ver. Eu queria te conhecer melhor, falar com você, mas você foi embora sem se despedir, eu queria muito entender o que havia acontecido...
- Eu tinha um compromisso de família... – quis se explicar.
- Agora eu sei...
- Então foi só uma carona? – insistiu na pergunta.
Chegaram ao restaurante, e Gabriel acabara de estacionar o carro. Virou-se para Anna, pegou sua mão e disse com gentileza.
- Já faz algum tempo que presto atenção em você. Vejo você lendo nas missas, ajudando a todos durante as celebrações, sorrindo pra todo mundo, mas eu achava, e os meus amigos também, que você era impossível pra mim. – Gabriel falava com tanta sinceridade que Anna teve vontade de chorar, mas controlou-se.
- Eu não sou impossível...
- Mas parecia... Parecia inatingível pra mim. Eu sonhei várias vezes com você, em como chegar até você, em como te conhecer, mas desisti todas as vezes porque me garantiram que seria impossível ficar com você. Eu ainda não acredito que estou aqui, com você, só nós dois. – Gabriel olhava Anna nos olhos, como se pudesse ler seus pensamentos, sua alma. E continuou – Se isto for um sonho, quero continuar dormindo, tá?!
Anna não conseguia acreditar em tudo que acabara de ouvir. Ela passara meses sonhando com alguém que sonhava com ela e um não sabia do outro, um não acreditava na possibilidade de estar com o outro.
- Podemos entrar? – perguntou Gabriel tirando Anna de seus pensamentos. – Continuamos a conversa lá dentro, é mais seguro.
- Tá.
- Eu abro a porta, espere. – Exigiu o garoto, mantendo o título de encantador.
O que fazer? Como agir? “Seja natural, seja natural”, Anna repetia essas palavras como um mantra na tentativa de se acalmar, mas não funcionava, estava trêmula. Aceitar a mão de Gabriel para sair do carro era, certamente, a melhor opção, assim se certificaria de não cair ali mesmo.
Caminharam em silêncio até a entrada do restaurante, onde uma recepcionista muito educada veio recepciona-los.
- Mesa pra dois?
- Sim, obrigado. Em lugar mais discreto, pode ser? – Pediu Gabriel.
- Claro, me acompanhem.
A bela moça os conduziu até uma mesa que ficava ao canto do salão, próximo à parede de vidro que dava para um lindo jardim de inverno, no interior do restaurante.
- Está bom para vocês? – perguntou com um sorriso.
- Ótimo. – respondeu Gabriel sorrindo em resposta.
O garoto puxou a cadeira para Anna que, sem saber bem o que fazer - afinal, ninguém nunca lhe havia puxado a cadeira antes – sentou-se e ajudou-o a posicionar a cadeira de modo mais confortável para si. Gabriel sentou-se bem a seu lado, tão perto que ela podia sentir o inebriante perfume que vinha do rapaz.
O lugar era lindo, mais ainda do que Anna imaginara. Com um aspecto de cozinha antiga, móveis de madeira, toalhas impecavelmente brancas sobrepostas a outra vermelha e uma iluminação bastante sutil, que convidava a falar baixo e educadamente.
- Suco? – questionou Gabriel antes de solicitar ao garçom que nesse momento se aproximava dos dois.
- De laranja, por favor. E sem açúcar.
- Dois sucos de laranja sem açúcar, por favor. – pediu ao atendente, que lhe entregara o menu.
- De que sabor gosta? – perguntou a Anna.
- Qualquer uma com palmito. – era melhor não inventar muito. Quanto mais simples, mais fácil de engolir...
- Gosta de queijos?
- Adoro.
- Então meia de palmito e meia de quatro-queijos, pode ser?
- Pra mim está ótimo.
O garçom lhes entregou os sucos, anotou o pedido e saiu discretamente. Imediatamente Anna retomou a conversa de outrora.
- Desculpa o interrogatório, mas é que minhas amigas viram você conversando com a Paula e depois, abrindo a porta do carro pra ela, e...
- Eu gosto de ser educado – interrompeu o rapaz. – Aprendi com meu pai. Ele diz que um homem de verdade é sempre gentil com as damas, não importa ondeou quem ela seja.
- Ele tem razão! – Disse Anna. – é que estão acontecendo tantas coisas comigo recentemente, já nem sei o que pensar... Falaram, achei que pudesse ser verdade...
- A verdade é que estou agora no lugar que eu queria estar, com a Dama que eu desejo ter por companhia, num lugar muito agradável e não quero que isto mude.
Anna sentia-se ruborizar, parecia que aquele garoto e suas palavras haviam saído das páginas de um lindo livro de José de Alencar e se colocado ali, bem à sua frente. Nem em seus sonhos mais remotos poderia imaginar aquela cena, menos ainda aquelas palavras. Seria mesmo tudo verdade? Seria ele diferente de todos os sapos que ela conhecia? Como saber? Vivendo... Um dia de cada vez.
- Você é tão diferente dos rapazes que conheci... – Anna buscava as palavras, não podia dizer besteira diante de tamanha gentileza. – Só fico me perguntando se isso é mesmo possível ou se é apenas impressão de primeiro encontro...
- Pra começar: este é o nosso segundo encontro... – Anna estava enlouquecida, ele considerara a noite anterior um encontro... Era demais pra ser verdade. – Segundo: pra ter certeza de que eu sou mesmo assim, que estou mesmo apaixonado por você e que farei o possível pra cada encontro ser melhor que o anterior, você precisa dizer sim...
Inevitavelmente, uma lágrima formou-se nos olhos de Anna. Era de fato um sonho se tornando realidade. Engoliu o que lhe restava na boca seca e indagou:
- Dizer sim?
- É. Quer ser minha namorada?
Um enorme e lindo sorriso se abriu no rosto já molhado por uma única lágrima que escorria do olho esquerdo. Pra que palavras? Elas eram dispensáveis, mas inevitáveis.
- Sim... mas com uma condição: - Os olhos de Gabriel pareceram assustados, mas nada disse, esperou atentamente. – Que a minha liberdade continue existindo, que você faça parte da minha vida, mas seja ela.
- Fazer você feliz é parte do meu compromisso. Te encontrei livre, e é assim que te quero. Livre pra me amar e aceitar o meu amor.
Com a mão esquerda sob os longos cabelos de Anna e a direita tocando-lhe a face, Gabriel aproximou-se o quanto podia da amada, até que seus lábios se tocaram docemente, como se já se conhecessem há uma eternidade e fossem feitos para ficar juntos. Beijou-a como se fosse, aquele, um beijo imortalizante, capaz de tirá-los desta dimensão e remetê-los a um mundo perfeito, onde somente o amor existisse. Naquele beijo, Anna descobriu o verdadeiro sabor de um beijo apaixonado, inebriante, sedutor, arrebatador. Ela não sabe quanto tempo durou aquele beijo, mas sabe que foi perfeito.
Distanciando-se levemente, olharam-se nos olhos e selaram ali um compromisso de amor que só aumentou a cada dia. Anna contou-lhe toda a sua saga desde conhecê-lo até aquele dia, mas não naquela noite. Aquela noite serviu apenas para se conhecerem: o livro favorito, o melhor filme, o lugar dos sonhos...

Se a menina sonhadora pudesse resumir aquele dia em uma palavra, seria, certamente, inesquecível! 

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