sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Os príncipes existem (VII)

(O encontro)

Aquela semana não foi fácil. O domingo foi pra lá de difícil. Anna não conseguia entender o que acontecera na véspera, estava tão perto de falar com Gabriel, mas tinha de sair com os pais. Não parava de se perguntar por que não disse ao pai que tinha um compromisso inadiável, inventasse uma desculpa, uma amiga precisando de ajuda. Mas nada fizera. Fora ao passeio de família como combinado, deixando Gabriel para trás... Quis ir ao encontro de Julia de descobrir se foram a algum lugar, se Gabriel foi, se alguém conversou com ele, mas sabia que a amiga estaria fora naquele dia. Não havia nada que pudesse fazer. Pensou em ligar para a casa dele, àquela altura já conseguira o número, mas ia dizer o quê? Que era uma louca apaixonada por ele e que gostaria de encontrá-lo? Não podia, isso não combinava com ela e ainda correria o risco de ouvir, por telefone, um grande fora. Melhor não fazer nada, por enquanto.
Era semana de provas, que sorte. Preocupou-se tanto em preparar-se para as avaliações finais que não sobrou folga para lembrar o que fizera no sábado. E, assim, chegou novo final de semana. No sábado, depois do encontro, haveria uma festa de aniversário. Uma integrante mais nova do grupo, com quem Anna nem tinha muita afinidade, não que não gostasse da menina, mas pouco conversava com ela, procurava apenas ser acolhedora. Contudo, como o convite era para o grupo todo, Anna decidiu que iria à festa. Pensava consigo mesma se Gabriel apareceria, afinal, ele estava presente no último encontro quando Roberta fizera o convite.
Naquele sábado, cuidou de si como há muito tempo não fazia. Passou a tarde cuidando dos cabelos e das unhas. Não havia dito nada à sua irmã, Marina, que, apensar de ser apenas dois anos mais nova que Anna, era bastante diferente dela. Dificilmente saiam juntas, e não tinham amigos em comum. Marina tinha um namorado e, por essa razão, nem ao grupo ia mais. Mas, em casa, eram amigas, ajudavam-se sempre que uma precisasse da outra, havia uma certa conexão inexplicável entre elas e, claro, Marina percebeu naquele dia que havia algo diferente com sua irmã mais velha. Resolveu, então, dar uma forcinha.
Marina hidratou os cabelos de Anna e ajudou-a a esmaltar as unhas, coisas que Anna raramente fazia. Na hora de se vestir, escolheu um lindo vestido preto de alças finas e acrescentou a ele um lindo bolerinho vermelho de crochê. Emprestou um par de scarpin pretos e acrescentou um colar bastante delicado ao pescoço da irmã. Ajudou na maquiagem, escolhendo tons suaves de terra e, lógico, o melhor perfume da irmã. Anna estava tão linda que seu pai quis saber o motivo de tamanha produção.
- Vamos ter uma festa de quinze anos de uma garota nova do grupo. – Explicou Anna.
- E a que horas devo te buscar? – Perguntou o pai como fazia todas as vezes que Anna saía.
- Não precisa, pai, o Rafael vai me trazer depois da festa.
Rafael era um amigo de infância. Estudaram juntos, seus pais se conheciam. O pai de Anna nunca se importou que ele a trouxesse para casa ou a buscasse para passeios, confiava no rapaz, só nunca entendeu porque jamais namoraram, já que eram tão confidentes. Cansara de ver a filha ao telefone com o amigo, muitas vezes consolando-o, mas Anna insistia que eram amigos demais para se tornarem namorados.
- Então, se divirta. – Disse o pai com a voz mais carinhosa que se possa imaginar e, logo em seguida, beijou o rosto da filha como uma espécie de desejo de boa sorte.
Anna saiu de casa com a irmã, ela para o grupo de jovens e Marina para um jantar com a família do namorado. Levou tanto tempo se aprontando naquele dia, que perdera a hora da missa, iria no domingo com a família.
Chegou com a missa no fim, sentou-se ao fundo da igreja e ficou esperando que as pessoas saíssem para se aproximar dos amigos. Percebendo que a igreja já estava bem vazia, levantou-se para seguir em direção ao altar, virou-se para apanhar a pequena bolsa que a irmã insistira que ela levasse, sob a desculpa de que precisava de um lugar para pôr documento, mas Anna sabia que na verdade queria que ela combinasse a bolsa com o sapato, era a cara da Marina. Quando se virou para o corredor, estava, à sua frente, uma mão estendida... Gabriel, gentilmente, olhava para Anna como quem admira uma obra de arte.
Anna era uma menina muito bonita. Não muito alta, mas bastante elegante, com postura de manequim. Não era magra como as modelos de passarela, mas tinha uma cintura muito acentuada, como todas as mulheres da família do pai. A pele alva destacava os cabelos e olhos negros e, com o traje daquela noite, parecia ainda mais branca devido ao vermelho que cobria seus ombros. Fora sempre muito cortejada pelos garotos de sua idade e pelos mais velhos, mas não admitia isso a ninguém, preferia sentir-se comum, invisível, se possível.
Era evidente que Gabriel a olhava deslumbrado. Seus olhos brilhavam, só não se sabe se mais que os de Anna, que mal podia crer no que seus olhos viam. O que fazer? Pegar em suas mãos ou ignorá-las? Não! Era sua chance... Segurou na mão de Gabriel e sorriu. Foi o máximo que podia fazer. Tentar falar seria em vão, já se formara aquele nó na garganta que só quem já esteve diante de um grande amor conhece.
Gabriel estava elegantíssimo com uma calça social creme e camisa preta. Mantinha aquele perfume da semana anterior, quando Anna estivera a seu lado durante o encontro. Ele era o típico “mauricinho”, sempre muito alinhado, a camisa dentro da calça, cinto da cor do sapato, cabelos penteados para trás e as mangas longas da camisa enroladas até próximo ao cotovelo. Era um príncipe perfeito, só faltava ser dela.
-Você está linda...
Ouviu Gabriel sussurrar ao seu ouvido aproximando-se do rosto de Anna, logo após um beijo para lá de suave que recebera em sua face direita. Não lavaria nunca mais o rosto, era o pensamento de Anna naquele momento, mas palavra alguma ouviu-se de seus lábios, apenas o rosado comum às tímidas surgiu em seu rosto, confessando o que sentia.
Tão logo quanto Anna deu seu primeiro passo ao lado do amor de sua vida, Julia surgiu, como um raio, puxando-a como se esta fosse sua propriedade.
- Oi, Gabriel. - Disse, afastando-se dele e carregando consigo a amiga. – Precisamos conversar, na festa, ok?
- Aconteceu alguma coisa?- Quis saber Anna.
- Na festa. – Foi a resposta de Julia. E aproximaram-se dos amigos que já haviam formado o círculo diante do altar.
A reunião seguir muito animada, todos participaram ativamente, até Gabriel fez um agradecimento pela família e amigos. Desta vez, Anna permanecera ao lado de Mariane, no extremo oposto ao seu príncipe, tentando concentrar-se no encontro e não em sua presença.
Abraço da paz, e sentiu novamente o corpo de Gabriel junto ao seu, pode embriagar-se mais uma vez em seu perfume...
- Todos vão pra festa da Denize? – Perguntou Julio Cesar.
Ouviu-se um sim quase uníssono. E começaram a sair da igreja. Anna estava perto da porta quando sentiu que alguém tocava em seu braço. Virou-se e ouviu:
- Quer ir comigo? Pode trazer suas amigas. – Disse, Gabriel, com gentileza, mostrando aquele sorriso encantador que só ele tinha.
- Vamos. – Foi a resposta de Anna, voltando-se para Mariane e Julia, que estavam um pouco a frente de si, com aquele olhar de “diz-que-sim-pelo-amor-de-Deus”.
- Tá. Foi a resposta que ouviu.
E caminharam lado a lado até o carro de Gabriel. Um Gol preto.
- Príncipes costumam ter cavalo branco... – Comentou Mariane bem perto do ouvido de Anna, certificando-se de que ninguém mais pudesse ouvir. Mas a sua risada fez todos olharem. Anna riu também, mas nada disse.
Gabriel abriu a porta para que as amigas entrassem, o carro tinha apenas duas portas. Anna ficou por último, claro, acomodando-se no banco da frente, ao lado do motorista, que fechou delicadamente a porta para ela, antes de dar a volta e assumir a direção.
- Eu não sei onde é a festa, você pode me ajudar? – Perguntou a Anna com uma piscada de olho que fez Anna suar frio.
- Claro. – Foi tudo o que ela conseguiu responder.
As amigas ajudaram e em menos de dez minutos estavam estacionando o carro em frente ao salão onde se realizaria a festa.
Desceram do carro e caminharam até a entrada do salão, onde, após identificação, entraram e ocuparam seus lugares como indicado pela recepcionista.
Foi designado aos amigos um espaço “vip”, onde se formou uma espécie de barzinho, com mesas altas e pequenas, alguns bancos também altos e muito espaço para ficar em  pé e poderem conversar livremente, sem a presença dos adultos. O Bartender ficava no mesmo local, não servia bebia alcoólica, exigência imposta pelos pais da aniversariante, mas preparava drinks deliciosos com frutas e refrigerante, quem não soubesse, juraria que havia álcool.
A noite foi animadíssima. Quase todos os amigos de Anna estavam ali. Conversaram muito, riram bastante, dançaram tanto quanto fosse possível. Gabriel estava perto, não tão perto quanto Anna desejava, mas estava em seu campo de visão, e isso já era o bastante para ela sentir-se mais alegre que nunca. Estavam no mesmo ambiente, curtindo as mesmas conversas, companhias e distrações, era um ótimo começo.
Chegou a esperada valsa dos quinze anos e, junto dela, uma surpresa:
- A aniversariante pede que seus amigos a acompanhem na valsa. – Disse a cerimonialista, em alto e bom som, no microfone, e todos os presentes dirigiram seus olhares para aquele recinto.
Os pares foram se formando e lá estava, de novo, a mão de Gabriel estendida para Anna, que não hesitou, pegou-a e caminhou até a pista de dança, onde os outros casais já se encontravam, e a música começou. Vozes da primavera de Strauss. Roberta, acompanhada por um amigo, deu o primeiro passo da valsa e os demais a acompanharam.
Gabriel deslizou suavemente sua mão esquerda pela cintura de Anna enquanto a direita segurava firme e delicadamente a mão esquerda dela. A mão direita de Anna tocava o ombro de Gabriel com o desejo de abraçá-lo. E Gabriel a conduziu levemente ao doce som que tocava tão alto que ninguém poderia ouvir quando ele disse ao ouvido de Anna que era muito bom poder dançar com ela. Esqueceram que a valsa era da amiga e dançaram como se fossem o único casal presente naquele lugar. Pararam ao som dos aplausos que, certamente, não eram para eles e, por isso, passaram a aplaudir também.
Voltaram aos seus lugares e a festa continuou no mesmo clima de antes. Era pouco mais de uma hora quando Rafael aproximou-se dizendo que iria embora, mas antes que Anna pudesse dizer algo, ele mesmo se antecipou dizendo que Gabriel a levaria para casa. Anna olhou de um para outro e viu quando o amigo lhe piscara um olho. Entendeu que aquilo já havia sido decido antes. Despediram-se e Anna viu Rafael saindo acompanhado, também.
Poucos minutos depois, Gabriel dirigiu-se a Anna.
- Quando quiser ir, pode dizer.
- Acho que podemos ir já. É tarde.
Saíram da festa, caminharam lado a lado até o carro de Gabriel e ele, mais uma vez, fez questão de abrir a porta para Anna, que tinha dificuldade para crer no que estava acontecendo. Seguiram conversando até a casa dela. O salão onde fora a festa não ficava muito longe, cerca de vinte minutos de carro até a casa de Anna, mas Gabriel dirigiu o mais lentamente que podia, de modo que gastaram mais de meia hora para chegar.
Conversaram sobre muitas coisas. Anna soube as profissões dos pais de Gabriel, quantos irmãos tinha, nomes e idades, e falara o mesmo sobre sua família. Descobriu que ele estava no terceiro ano da faculdade de relações internacionais, falava inglês e alemão fluentemente e estagiava em uma multinacional alemã há um ano. Fora o primeiro aluno da turma de ensino médio, e tinha um boletim invejável na faculdade, ela viu seu extrato de notas caído no console do carro. Comprara aquele carro, que pagaria por mais dois anos, com o salário de seu estágio e uma ajudinha do pai. Era muito responsável e acreditava que amor verdadeiro existe.
- O que aconteceu entre você e a Letícia? Não deu certo? – Anna não podia perder a chance de saber sua versão sobre os fatos.
- Não. – Responder sinceramente, Gabriel. – Nós não temos muitas coisas em comum, sabe? Então achamos que era melhor cada um seguir seu rumo. Mas ela é legal, só não é quem eu queria ter comigo.
Anna sentia-se aliviada. A resposta de Gabriel era muito parecida com a que Letícia lhe dera, então ela não precisava mais se preocupar com a menina. Parecia que as coisas iam se encaixando. Seria mesmo ele o príncipe com que Anna sonhava há tanto tempo? Teria ela encontrado o amor de sua vida? Mas como saber o que ele sentia? Ele tinha sido gentil a noite toda, mas daí a saber o que se passava em seu coração era algo que Anna não podia.
Nunca precisara se declarar a alguém. Primeiro porque nunca amara de verdade, segundo porque seus antigos namoros começaram, simplesmente, sem que alguém dissesse o que sentia. Ela, de fato, não sabia o que fazer.
Chegaram à casa de Anna. As luzes estavam apagadas, mas ela sabia que a mãe estava acordada, pois nunca dormia antes que o último de seus filhos estivesse dentro de casa.
A casa ficava no meio de um terreno muito grande, de maneira que havia um caminho gramado e longo até a porta de entrada e Gabriel fez questão de acompanhá-la até a porta, alegando que estava muito escuro para ela entrar sozinha.
Agora Anna morreria. Seu coração deveria estar pulsando há 200 por minuto, ela sentia seu corpo todo trêmulo, aquele nó na boca do estômago apareceu novamente e ela sentia que poderia cair a qualquer momento, não suportando o peso de seu corpo sobre suas pernas. Chegaram à porta, e Gabriel, gentilmente, pegou em ambas as mãos de Anna, olhou em seus olhos com um brilho nunca antes visto e disse bem baixinho:
- Obrigada pela noite maravilhosa que tivemos. Adorei sua companhia. Espero tê-la outras vezes.
E, antes que Anna dissesse qualquer palavra, beijou-lhe a face e envolveu-a em um abraço forte e delicado que fez Anna sentir-se fora do chão. Todo seu corpo sentindo cada centímetro do corpo de Gabriel, quente, cheiroso, envolvente. Aquele abraço poderia durar o resto da vida. Anna não queria deixar que aqueles braços a soltassem. Nunca antes sentia algo semelhante. Era simplesmente inexplicável. A melhor sensação que já tivera na vida.
Soltaram-se.
- Abra a porta e entre, depois eu saio. – Disse gentilmente Gabriel.
Anna abriu a porta e entrou.
- Tchau. – Foi tudo o que conseguiu dizer.
Viu Gabriel afastando-se dela em direção ao portão, e quis gritar para que ele voltasse, ou correr ao seu encontro e beijá-lo, mas nada fez. Limitou-se a olhar... Quando ele fechou o portão, ela fechou a porta atrás de si, encostou nela e ficou, sem saber o que pensar ou fazer.
Quando, finalmente, conseguiu olhar para frente e caminhar para seu quarto, viu a mãe sentada no sofá olhando para ela.
- Quer me contar alguma coisa?
- Ainda não, mãe, mas acho que estou apaixonada...

Deu um beijo na mãe e foi para seu quarto.

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