(O
reencontro)
Era
aniversário da Anna. Vinte anos. Ótimo motivo para comemorar. E foi o que Julia
fez. Convocou os amigos para uma festa surpresa. Ela sabia que amiga não era
muito fã de festas surpresa, mas, mesmo assim, decidiu que a amiga merecia uma
festa e como ela não queria fazer, Julia fez.
O
convite aos amigos foi por telefone. Ligou para alguns e pediu ajuda.
-
Isabella, você pode me ajudar a organizar uma festa surpresa pra Anna? Vinte
anos não podem passar sem festa, concorda?
-
Com certeza! Onde vai ser?
-
Na casa da Mariane. Os pais delas liberaram e lá tem mais espaço. Sábado,
depois do encontro, ok?
-
Beleza. Já avisou as meninas.
-
Já, mas faltam algumas, pode me ajudar?
-
Deixa comigo, Julia. Pra quem devo ligar?
-
Pra Gabi, pra Giulia, pra Luiza e pra Karina. Assim acho que toda a galera fica
avisada.
-
Falou.
E
assim a festa se organizou.
Essa
galera frequentava um grupo de jovens que se reunia todos os sábados após a
missa. Liam o evangelho, discutiam o texto bíblico contextualizando a vida
atual com aquele ensinamento, faziam lindas orações e cantavam em louvor a
Deus. Durava cerca de uma hora esses encontros e depois costumavam sair juntos
para diferentes destinos, alguns eram a casa de alguém do grupo para comer
pipoca ou pizza e gastar algumas horas em boa companhia com boa conversa.
Assim, seria fácil convencer Anna a ir até a casa da amiga para comer pizza...
Tudo
correu como o planejado. Anna mal chegara ao local do encontro e já recebera os
cumprimentos de todos pelo seu aniversário, além de ouvir muitas reclamações
por não ter preparado uma festa. Logo, então, alguém sugeriu:
-
Por que não vamos pra minha casa comer pizza? Não vai ter bolo, nem brigadeiro,
mas podemos jogar conversa fora até tarde.
-
Assim, tudo bem. Só preciso avisar meu pai, porque hoje vim de carro...
Anna
poucas vezes saía dirigindo. O pai achava muito perigoso que ela dirigisse,
sozinha, à noite. Preferia buscá-la, não importava onde fosse. Mas, naquele
dia, Anna conseguiu convencer o pai de que merecia sair com carro, como um
presente de aniversário. E, como o pai já sabia da festa, tratou logo de
concordar com a filha, fazendo inúmeras recomendações, como era costume, para
garantir que ela não desconfiasse de sua permissão tão repentina.
Durante
o telefonema, o pai manteve a postura de fazer milhares de ressalvas sobre os
perigos de se dirigir à noite, assim, Anna continuou não desconfiando de nada.
O
encontro corria muito bem, mas, eis que surgiu alguém que Anna não via há
vários meses. Gabriel estava no grupo... Como assim? Ela já frequentava aquele
grupo há dois anos e nunca o vira ali. O coração de Anna batia tão forte, que
teve medo que ele pulasse para fora de seu peito. Mas ele estava acompanhado...
Gabriel chegara acompanhado de Letícia, uma garota um pouco mais nova que Anna,
que morava perto da casa de Julia. Elas não tinham muita amizade, mas sabia que
a menina era amiga da Luiza, e que tinha muitos problemas com a família. Fazia tempo
que Luiza tentava levá-la para o grupo, com a intenção de ajudar, mas Letícia
sempre recusava o convite. Por que justo naquele dia? E logo com quem?
Anna
sentiu-se tão arrasada que mal pode ouvir as palavras dos amigos comentando o
evangelho. Sentia-se, ao mesmo tempo, decepcionada e culpada. Nunca em sua vida
se apaixonara por alguém comprometido. Não conseguia entender o que estava acontecendo
consigo. Era impossível desviar seus pensamentos daquele garoto tão lindo e
simpático. Com aquele sorriso que encantaria a qualquer pessoa. Mas ele estava
acompanhado... Aquela deveria ser a tal namorada de que Julia falara. Mas Anna
ia com tanta frequência à casa da amiga, via Letícia, como nunca vira Gabriel
por ali? Nenhum sábado, domingo? Os sessenta minutos do encontro se passaram
como seis. Anna, perdida em seus pensamentos, chegou a assustar-se quando
recebeu o primeiro abraço de paz. Era assim que os encontros terminavam, todos
se abraçando e desejando a paz.
Era
hora de ir para a casa da Mariane. Que bom. Assim não teria que continuar vendo
Gabriel. E, como dizia a mãe, o que os olhos não veem o coração não sente. Grande
mentira! Sente, mas sente menos...
-
Julia, essa é a namorada de que falou? Quis saber Anna tão logo quanto a amiga
se aproximou dela, apontando para Letícia, sem nem perceber o que fazia.
-
Ah! Não. Ele terminou com aquela namorada. Está saindo com a Lê faz, sei lá,
duas semanas. Mas... Por quê a curiosidade? Cê tá gostando dele?!
-
Não. Só perguntei por perguntar.
-
Anna, cê acha mesmo que consegue me enganar?
-
Julia. Se você falar sobre isso com alguém, eu te mato! Entendeu? Mato!
-
Amiga, pode confiar. Mas, então, o que a gente pode fazer?
-
Nada! Não vamos fazer nada! Entendeu, Julia? Deixe os dois em paz.
-
Tá. Se você quer assim...
Foram
para a casa da Mariane. Anna aproveitou e levou três amigas em seu carro. Para sua
felicidade, Gabriel não foi.
Entraram
como se fosse mais uma pizzada comum. Mas, quando todos estavam em seus
lugares, eis que a mãe da Mariane chega com um bolo cantando parabéns.
Anna
olhava os amigos sem saber o que dizer. Odiava festa surpresa, mas amava os
amigos. Era o dia das contradições. Sem alternativa, soprou as velas. Vinte,
todas azuis, sua cor favorita, e agradeceu aos amigos pelo carinho.
A
noite foi ótima. Tinha pizza de verdade. Mas também brigadeiro, cajuzinho e
bala de gelatina... Voltou para casa já passava da meia-noite. Estava feliz
pela festa, pela companhia dos amigos, mas não parava de pensar em Gabriel.
Anna
chegara a pensar que tivesse esquecido o garoto, mas vê-lo fez perceber que na
verdade havia um sentimento em si muito maior do que imaginava. Algo que nunca
sentira por ninguém. Jamais havia sentido aquele aperto na boca do estômago,
não por causa de um garoto. Como explicar aquilo? Suas pernas ficaram trêmulas
ao vê-lo, sua boca secara, como se não houvesse mais saliva, sentira um
calafrio correr todo seu corpo e continuar ali por longos minutos. Seria amor? Ou
o quê? E ele acompanhado... Outra namorada... Será que ele era do tipo que sai
com todas? Fica com uma por mês? Mas Julia lhe garantira que Gabriel tinha
namorado por vários meses a anterior. Pegar no sono aquela noite foi cruel. O relógio
já marcava duas horas e Anna estava ainda acordada. Finalmente adormeceu...
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