(Quem
é ele?)
Os
dias pareciam sempre iguais. Anna levantava cedo e ia para a escola, à noite
para a escola, estudava inglês e espanhol, fim de semana servia para estudar,
pôr os trabalhos e leituras em dia, além, é claro, de passar algum tempo com os
pais e irmãos. Moravam em uma bela casa, com um imenso quintal, cheio de
plantas, árvores, pássaros, que viviam soltos na natureza daquele lugar
tranquilo.
Seu
pai sempre fora muito presente, daqueles que quer saber tudo que se passa com
os filhos, chegava, às vezes, a ser inconveniente com suas perguntas sobre o
fim de semana, a escola, os amigos, os paqueras... Tentava até arriscar como
fora a festa:
-
Você está com cara de quem dançou muito, mas não beijou ninguém.
-
Pai! Reclamava Anna. – Esse não é o tipo de conversa que quero ter com você.
A
mãe era mais discreta. Não fazia comentários, a menos que fossem solicitados,
mas sempre sabia as palavras certas nas horas mais difíceis. Dissera certa vez
que ninguém poderia ser mais importante que seus filhos e que o melhor marido
seria aquele que entendesse a sensibilidade de uma mulher, a ponto de amá-la
incondicionalmente e viver todos os dias da vida tentando fazê-la mais feliz. E
que a melhor esposa era aquela que soubesse ser companheira em todas as horas,
ouvir mesmo sem compreender, e ter o abraço mais carinhoso quando as
dificuldades chegassem.
A
casa era o lugar preferido de Anna. Ainda mais naquela época, sem namorado, sem
amor, sem vontade de se envolver com alguém. Estudar era seu foco, então, o
melhor mesmo, era poder ficar no sossego de seu quarto lendo ou escrevendo.
Fossem trabalhos para a escola, ou anotações sem importância que falassem de si
mesma.
Poucas
pessoas conseguiam tirá-la de seu refúgio. Dentre elas, Julia, uma amiga
querida que a entendia como ninguém. Estava sempre pronta a ajudar e fazer
festa era com ela mesma. Dizia que não há tristeza que não se rendesse a uma
boa festa... E foi assim que Julia conseguiu fazer Anna deixar seu mundinho e
sair um pouco para se divertir.
Era
sexta-feira, primeira semana de férias, nenhum compromisso além de descansar e
ler, mas um telefonema mudou seus planos para aquela noite:
-
Anna, é a Julia. Está pronta para uma mega festa esta noite?
-
Oi, Julia. Pra ser franca, eu pretendia terminar a leitura de um livro...
-
Sem chance! Vai rolar uma festa de mulheres aqui em casa. Meus pais têm um
compromisso que vai até às onze e meu irmão vai pra casa da nossa vó. Casa livre!
-
Já confirmou com as meninas? Quis saber Anna esperando ouvir um sim, daqueles
bem grandes, como era a cara de Julia. Mas para sua surpresa...
-
Não! Nós vamos fazer isso juntas! Aliás, vamos também comprar os ingredientes.
-
Ingredientes...???
-
É. Vamos fazer hot dog e beber um pouquinho...
-
Julia, eu não bebo, lembra?
-
Ah, é mesmo. Mas vai comigo mesmo assim.
Eram
ainda nove horas da manhã, e Anna não estava pronta para sair da cama, mas
sabia que não adiantaria recusar: se não se levantasse e fosse ao encontro da
amiga, esta estaria ali em menos de meia-hora. Então, o melhor mesmo era
levantar e seguir para a casa de Julia. Assim fez. Combinou que chegaria em
quarenta minutos, mas demorou uma hora. Era impossível para Anna sair de casa
antes que fosse cumprido um ritual diário.
Moravam
em um bairro privilegiado, tinha tudo por perto. Mercado, padaria, lojas... Tão
perto que faziam tudo a pé, tempo perfeito para colocar a conversa, e as
fofocas, em dia. Aquele seria mais um dia comum, de festa, na casa da Julia. Eram
12 meninas, entre 18 e 21 anos. Conheciam-se há tanto tempo, que os pais nunca
se importavam que ficassem umas na casa das outras e, por isso, Julia se
encarregava de organizar festas todos os meses, havia dois anos. Qualquer casa
servia, desde que os pais estivessem ausentes... E a maioria das vezes era,
mesmo, na casa da Julia.
Depois
de quarenta minutos ligando para todas as amigas, lá iam as duas pelas ruas do
bairro a caminho do supermercado, quando passaram por um garoto que Anna não
conhecia, mas Julia sim. Pararam, Julia o cumprimentou, trocou algumas palavras
com ele, que Anna definitivamente não ouviu, e seguiram. Educado, ele dissera
um “oi” para Anna.
-
Quem era? Quis saber Anna assim que o rapaz se afastou. Mal sabia a amiga que
sua pergunta carregava mais que curiosidade. Como poderia sua grande amiga
conhecer alguém que Anna nunca vira? Cujos olhos brilhavam mais que qualquer
estrela do céu. Um sorriso que não se podia explicar, meigo, suave, encantador,
fascinante. Sua voz parecia tocar os ouvidos com a suavidade de uma pétala de
rosa. Não era possível! Ou era? Anna estava arrebatada por um jovem que nunca
havia visto antes. Parecia até romance do século XVIII.
-
Chama-se Gabriel.
-
E... Quis mais, sem dizer muito, mas com uma expressão que a amiga conhecia
bem.
-
Estudamos juntos há alguns anos. Bonito ele, não?!
-
Ah, é, quer dizer. É. Pareceu simpático.
-
Anna, ele tem namorada...
-
Ma-ma-mas eu nem me interessei – gaguejou Anna sem compreender o que estava
acontecendo. Só perguntei porque você costuma apresentar as pessoas que não conheço...
-
Desculpa. Te apresento da próxima vez que encontrar com ele, ok?
-
Esquece.
Taí
algo que já não era possível. Não sabia bem por quê, mas Anna passou o resto
daquele dia, daquela semana, e das próximas, pensando naquele Gabriel. Mas ele
tinha namorada, foi o que lhe dissera Julia, então era melhor achar outro
motivo para seus pensamentos... Mas aqueles olhos...
Compraram
tudo de que precisavam. E Anna com a cabeça nas nuvens. Voltaram para casa de
Julia, anteciparam o que era possível e Anna viu que era hora de ir para sua
casa. Já passava do horário do almoço e, aos sábados, todos comiam juntos em
sua casa, pois era o dia que ninguém tinha outro compromisso nesse horário.
-
Julia, já vou, volto às sete pra te ajudar, certo?
-
Combinado. Ah, não esquece seu pijama...
-
Quê???
-
Não disse? Ah, desculpa. Noite do pijama. Pode deixar que aviso as meninas...
-
Você não está aprontando nada, não é?!
-
Claro que não! Acha que só você vai trazer o pijama?? Vão adorar a ideia!
E
adoraram mesmo!
Oito
horas todas estavam com seus pijamas nas mãos, doze mulheres em um quarto
trocando de roupas. Uma loucura total! Tinha pijama de todas as cores, formatos
e tamanhos...
Devidamente
trajadas, a festa começou, ao som da Ivete Sangalo, com muito ketchup e um pouco de licor de Marula...
Festa com essa galera era diversão garantida!
A
metade delas namorava, a outra não. Mas namorados eram esquecidos nesses dias. Falavam
sobre quase tudo, menos dos meninos. Muito riso, muita dança, até coreografia
coletiva rolava. Ah, sem esquecer do concurso de pijama: o mais bonitinho, o
mais colorido, o mais sem graça. Anna não levou nenhum prêmio. Melhor assim,
pois sempre ficava com o menos interessante...
Já
eram dez e meia quando perceberam as horas. Era hora de arrumar a bagunça. Essa
era a regra para usar a casa. Em trinta minutos tudo arrumado, casa limpa,
quase limpa, e pijamas desvestidos. De volta à roupa da chegada. Tocou a
campainha. O pai de Anna. Como sempre, pontual. Como sempre, o primeiro.
Despedidas
e casa.
Já
na cama, voltou à memória de Anna aquele rosto. O que estaria acontecendo? Bastou
ver Gabriel uma vez para não esquecer mais sua fisionomia, seus olhos, sua
voz... Sonhou com Gabriel. O mesmo Gabriel com quem sonhara ter se casado há
cinco anos, às vésperas do casamento de sua tia Nê. Seria possível?
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