terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Os príncipes existem (parte VI)


 (Será que é amor?)

Nunca uma semana passou tão lentamente como aquela. Todos os dias Anna se perguntava como poderia chegar até Gabriel. Como começaria uma conversa com ele, se eles mal se conheciam? Afinal, nunca foram apresentados, apenas estiveram no mesmo lugar por algumas vezes, e na maioria delas, ele acompanhado.
Anna era do tipo decidida, que não ficava esperando as coisas acontecerem, fazia acontecer. Mas naquela situação particular o que deveria fazer? Não sabia. Se ao menos estivessem por algum tempo no mesmo lugar, puxar conversa seria uma possibilidade. Pensou muito durante aqueles dias, mas, por incrível que parecesse, nenhuma ideia surgia.
O sábado chegou, e naquele dia ela, Julia e Mariane eram as responsáveis por preparar a reunião do grupo de jovens. Deveriam escolher o evangelho a ser lido e preparar uma oração para o encerramento, por isso, reuniram-se à tarde em sua casa e preparam tudo sem demora ou dificuldade. Chegou a hora de por a conversa em dia.
Não mais aguentando a agonia, Anna revelou às amigas o que vinha sentindo, e sofrendo, há dias. Confessara que estava verdadeiramente arrebatada por uma paixão que não sabia explicar, sequer sabia dizer como começara, afinal, nem ela mesma acreditava que houvesse se apaixonado tão perdidamente por alguém em um breve olhar, naquela manhã, quando iam comprar as coisas para a festa do pijama. O que sabia era que sentia algo por Gabriel e nunca sentira antes. Seria amor?
Mariane revelou que conhecia Gabriel há algum tempo, tinham estudado juntos no ensino fundamental, mas nunca tivera grande amizade com o rapaz, pois este sempre fora bastante sério e reservado, pouco falava de si e tinha menos amigos que qualquer pessoa que Mariane conhecesse, dentre os quais, jovens bem mais velhos que elas. Contudo acrescentou que ele sempre fora muito educado e gentil, além de ser destaque na escola por conta de suas notas. Mas depois trocaram de escola e ela pouco o via, a não ser nas missas.
Anna ficou bastante surpresa com essa revelação, pois frequentavam a mesma igreja e ela estava certa de não tê-lo visto antes. Como seria possível ter estado tantas vezes no mesmo lugar que Gabriel sem nunca o ter observado e, de repente, não conseguir passar um único dia sem pensar nele. “O amor tem razões que a própria razão desconhece”, era o pensamento de Anna diante daquele fato tão recente e inusitado.
Estava claro que deveriam fazer algo para que Anna e Gabriel pudesse ficar juntos por algum tempo e, ao menos, conversarem, mas o quê? O garoto era tão reservado que pouco o viam, a não ser nos últimos tempos, mas saber aonde ele costumava ir nos finais de semana era uma missão para lá de difícil.
-Quase impossível! Disse, finalmente, Julia, depois de ouvir tudo o que amiga disse sem qualquer comentário. – Eu sei onde o pai dele trabalha, e sei que ele costuma acompanhar o pai algumas vezes. Mas não dá pra fazer plantão lá, né?!
- Não. Claro que não. Disse Anna. Mas vou prestar mais atenção durante a missa, quem sabe sento perto dele...
- Anna, você nunca se senta. Está sempre ajudando em alguma coisa... Lembrou Julia.
A conversa ainda durou longos minutos, até que chegou a hora de cada uma voltar para sua casa e preparar-se para o encontro que planejaram e do qual seriam as responsáveis naquela noite.
O encontro começou, como sempre, com a leitura do Evangelho e Anna fora a responsável pela missão. Todos ficavam em pé, formando um círculo diante do altar, e Anna estava de frente para cruz, de costas para a porta principal, a única que permanecia aberta durante os encontros. Mal acabara a leitura e percebeu que alguém se aproximava, ocupando um lugar ao seu lado. Mal podia acreditar em seus olhos ao ver Gabriel ali, ao seu lado. Como era possível?
Chegou sozinho e em silêncio, apenas ocupou um lugar e lá permaneceu. Anna sentia seu coração pulsar intensamente. Uma espécie de calafrio percorria seu corpo. Sentiu-se até culpada por tudo aquilo no meio de uma reunião religiosa, mas preferiu acreditar que seria uma providência divina, e como era divina... O perfume de Gabriel inebriava, Anna sentia-se até atordoada com aquela fragrância única e indescritível, chegara a fechar os olhos para sentir melhor sem que qualquer outra coisa atrapalhasse aquele prazer. Parecia sentir o calor que  emanava do corpo de Gabriel.
O que se seguiu naquele encontro, Anna não saberia dizer, pois ficou totalmente envolvida por aquele ser que estava ao seu lado, tão perto e tão longe... Não imaginava vê-lo tão cedo. Gabriel estava lindo. Vestia um jeans muito claro com uma camisa de listras finas, com as mangas enroladas até pouco abaixo do cotovelo, e um cinto da mesma cor do sapato, ambos marrons escuros. Era, certamente, a visão de um deus grego, perfeitamente entalhado em Carrara. Por sorte, estavam todos tão concentrados nos comentários que Anna e as amigas prepararam carinhosamente naquela tarde, que ninguém percebeu o estado avassalado de Anna, exceto, claro, a amiga Julia, que estava na posição oposta à Anna e, sabendo de sua paixão, não pode deixar de observá-la após a chegada de seu suposto príncipe e, percebendo o que se passava, despertou Anna chamando-a pelo nome, perguntando-lhe se queria fazer algum outro comentário.
- Não! Acho que já foi dito tudo. Foi a resposta decidida de Anna, como se estivesse totalmente inteirado do assunto.
- Sendo assim, podemos passar agora para a nossa oração final. Disse Mariane, que ficara responsável por conduzir aquele momento.
Foi, então, que Anna percebeu que já faziam ao menos vinte minutos que ela estava fora de si, embebecida pela presença de Gabriel. Mas antes que pudessem iniciar qualquer oração, de forma espontânea e inesperada, Julia disse alto, cortando a vós da Mariane.
- Virem-se de frente para a pessoa que está ao seu lado e peguem nas mãos.
Naquela hora, o coração de Anna parou de bater, a boca secou e começou a sentir as mãos suarem frio. Não fora aquilo que prepararam durante a tarde. Não compreendia o que estava acontecendo e, para piorar a situação, quando olhou à sua direita, encontrou as costas de Paula, uma amiga. Não lhe restara, portanto, alternativa. Virou-se para a esquerda e deparou-se com duas mãos estendidas para si como se em uma verdadeira oferta. Segurou nas mãos de Gabriel e teve a sensação de que o chão saíra debaixo de seus pés. Eram as mãos mais quentes e suaves que já segurara. Fez o possível para disfarçar sua alegria àquele toque.
Mariane conduziu a oração como o planejado, o problema era que Anna já sabia como terminaria, só não esperava que estivesse frente a frente com Gabriel. Desejou que aquele momento durasse para sempre, mas ao mesmo tempo, queria que acabasse logo, porque estava sendo muito difícil enfrentar todos aqueles sentimentos ali, dentro da igreja, não sabia se estava sendo abençoada ou se estava cometendo um grande pecado. E assim terminou a oração:
- Olhe para o amigo que está em sua frente e diga: eu te amo porque você é um filho de Deus.
Muitas foram as vozes ouvidas ao mesmo tempo, menos a de Anna, que não foi capaz de olhar para Gabriel, tampouco dizer aquelas simples palavras que ajudara a pensar naquela mesma tarde. Teve a impressão de ouvi-lo dizer algo, mas faltou coragem para olhar em seus lábios e entender o que dizia. O encontro acabou com o famoso abraço da paz. O melhor abraço que sentira em sua vida. Aqueles braços fortes em torno de si, os corpos muito próximos, podendo sentir o calor de Gabriel. Seu coração disparado como um cavalo vencendo uma corrida. Soltaram-se e foram cumprimentar os demais.

Ele estava ali, era a oportunidade que Anna precisava para conversar e saber um pouco mais daquele lindo jovem que vinha fazendo parte de seus sonhos há meses, mas ela havia prometido ao pai que iria acompanhar a família em uma visita a um parente que estava de passagem pela cidade e se hospedava na casa de sua avó. Por essa razão, saiu rapidamente da igreja, pois os pais já a esperavam do lado de fora. Despediu-se apenas de Julia, que não acreditava no que a amiga estava fazendo.

Um comentário: