Incríveis
descobertas
Aquela
semana não foi das melhores para Anna. Algum tempo sem ver Gabriel parecia
tê-lo apagado de sua memória, mas vê-lo novamente serviu, apenas, para
mostrar-lhe que, de fato, estava apaixonada. Não tinha sido uma simples paquera
de um garoto bonito. Havia algo mais. Havia algo dentro de Anna dizendo que
aquele era o garoto ideal. Mas com namorada? Nem pensar! Nunca se imaginara na situação
de “roubar” o namorado de alguém.
Sonhava
com Gabriel. Via-se, durante o dia, imaginando como seria o toque de sua mão, o
perfume que exalaria, o sabor de um beijo... Ainda eram bastante jovens, não sabia
ao certo, mas Julia lhe dissera que ele tinha, também, vinte anos. Então, talvez,
fosse necessário dar tempo ao tempo. Quem sabe um dia...
Passaram-se
duas semanas sem que Anna visse Gabriel. Nem ele, nem Letícia. Provavelmente haviam
desistido de participar de algo tão religioso. Anna não se lembrava de tê-los
visto antes na igreja, mas sendo tão grande o local, não se vê todo o mundo
mesmo.
Naquele
domingo, haveria um grande encontro da juventude, reunindo as paróquias de sua
cidade e, claro, Anna iria com suas amigas. Combinaram às 7h30 na casa da
Mariane, pois era a que ficava mais próximo do local do evento e, assim, poderiam
ir caminhando.
Anna
chegou cinco minutos antes, como era de costume. E, aos poucos, as outras oito
que iriam juntas chegaram, mas chegou ainda uma nona pessoa: Letícia.
-
Você sabia que ela iria? Indagou Anna a Julia.
-
Não. Mas há algum problema nisso?
-
Não. Só espero que aquela-pessoa não vá também...
Não
foi.
Seguiram
juntas, numa caminhada de quinze minutos até o recinto do encontro. Era um
espaço de eventos que havia na cidade, com um amplo gramado, muito bem cuidado,
áreas de asfalto onde se podia andar de bicicleta em dias comuns, sem evento, e
infraestrutura de água e banheiros. Era o local perfeito para grandes encontros
e festas comunitárias.
Encontraram
lá outros amigos, tanto de seu grupo, como os de outros grupos que conheciam na
cidade. Passaram uma ótima manhã, cantando e louvando a Deus. Era uma das
atividades favoritas das amigas. E poder ver milhares de jovens reunidos pela
mesma razão era sempre muito bom. Já estavam saindo do local para voltarem a
suas casas, quando Anna viu Gabriel, um pouco distante, com amigos que ela não
conhecia, pareciam ser um pouco mais velhos que ela. seu coração disparou. Anna
sentia-se estranha, nunca experimentara aquele sentimento ao mesmo tempo bom e
perturbador. Imaginando que ele viria ao encontro de Letícia, ficou preocupada,
não sabia como reagir diante de tal situação. Tudo aquilo era muito estranho
para ela. Mas para sua surpresa, foi apenas um aceno de mão, de longe, e bem
geral, daqueles que servem para todos os presentes. Todos retribuíram e
seguiram seu caminho, cada grupo em uma direção.
Todas
conversavam animadamente, exceto Letícia, que se limitava a rir das piadas e
Anna que nada dizia, refletindo sobre o ocorrido. Cinco minutos foi o máximo
que ela aguentou sem fazer perguntas. Não podia mais se conter. Aproximou-se de
Letícia e, como quem não quer nada, perguntou:
-
O Gabriel não quis ficar com você, por vergonha de nós?
-
Não. Houve uma breve pausa que deixou Anna arrependida de ter perguntado. - É que
não estamos mais juntos. Acho que ele achou indelicado ficar muito perto.
Respondeu Letícia com tanta educação que fez Anna sentir remorso por não ter
conversado antes com ela, ou ter tentado ser sua amiga.
-
Ah, desculpa! Tratou logo de dizer. – Eu não sabia... Faz tempo?
-
Duas semanas.
A
curiosidade era demais. Agora que começara, não podia mais parar, queria saber
mais. Tudo o que fosse possível.
-
Mas o que houve? Vocês pareciam bem.
-
Ah, sei lá. Acho que a gente se confundiu. Achou que era amor, mas não era. O
Gabriel é um cara bem legal, educado, mas ele é muito diferente de mim. A gente
achou que era melhor cada um seguir seu caminho.
Agora
o coração de Anna queria saltar de sua boca. Deveria ter parado alí a conversa,
porque já começara a suar frio, logo gaguejaria, mas precisava de mais informações.
-
Por que diferentes?
Letícia,
sem qualquer pergunta, ou desconfiança, como se num desabafo, explicou.
-
Ele é muito sério. Do tipo que tem que apresentar a namorada pros pais. E eu
ainda não tô a fim disso. Além disso, eu adoro balada, e ele prefere
jantarzinho a dois... A gente ficou muito pouco junto. Um mês só. Melhor assim.
-
É mesmo. Anna quis morrer por aquele comentário. Como podia ser tão indelicada?
Até egoísta? Mas era exatamente o que estava sentindo. Contudo, tratou logo de
emendar-se. – Quero dizer, se vocês não combinavam é melhor assim, não é?!
-
É.
-
Mas você vai ficar bem.
Outra
piada da Giulia e todas riram muito, inclusive Anna, que não ouvira a estória,
mas precisa sair daquela conversa antes que revelasse o óbvio.
Chegaram
à casa de Mariane e cada uma tomou seu caminho.
Anna
voltou para casa, não sabe bem como, talvez o carro soubesse o caminho, pois
estava perdida em pensamentos incríveis. Gabriel não namorava mais: caminho
livre. Ele era do tipo que quer relacionamento sério: inacreditável. Ele era
gentil e educado: isso ela já havia percebido. Mas como chegar até ele? Como dizer
tudo o que ela sentia? E ela podia fazer isso? Afinal, ele acabara de sair de
um relacionamento, e se Letícia ainda gostasse dele e só estivesse escondendo
para não admitir um fora? A cabeça de Anna estava a mil. Mas uma coisa era
certa: ele estava livre.
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