quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Os príncipes existem (parte I)


(Conhecendo Anna)

Quantos sapos uma garota deve beijar até encontrar seu príncipe? Era o que Anna se perguntava toda vez que um relacionamento não dava certo. E olha que ela era exigente! Não se envolvia com qualquer um, nem saía beijando todos os garotos que achava bonitinho... Teve alguns paqueras, ficantes como se diz hoje. Dois ou três namorados. É, do tipo que se leva para casa, apresenta para a família e acha-se que é o amor-da-sua-vida...
Com dezenove anos, ela já estava cansada de se enganar. Não era pela idade, afinal, sabia que era bastante jovem, mas pela falta de escrúpulos dos garotos com que se envolvera. Para eles, os hormônios estavam sempre acima do romantismo. Pega aqui, passa a mão ali, mas um rosa, um bombom, ou mesmo um cartão bonitinho, nunca. Definitivamente, não era esse tipo de homem que ela esperava ter a seu lado.
Anna fora uma menina sonhadora, daquelas que criavam estórias de faz-de-conta e as encenava com as bonecas, além de levá-las para a escola e convencer os amigos de que fora escrita por alguém importante... Mal aprendera a ler e já estava devorando os livros. Leu de tudo, de gibis a clássicos da literatura infantil, até que conheceu a coleção da tia Nê...
Nê era a irmã caçula do pai, com apenas dez anos de diferença de Anna, apaixonada por livros românticos, colecionava os “clássicos” da banca... E Anna começou a lê-los. Primeiro um bem fininho, depois um maior, maior e chegou àqueles que se dividem em volumes. Leu “Pássaros feridos” aos treze anos, nunca contou ao pai o teor da história, certamente ele desaprovaria... Leu o mito de Édipo e Jocasta na mesma época, e assim apaixonou-se pela mitologia. Leu Sabrina, Julia, Barbara Cartland e outros folhetins românticos da década de 80, e foi imaginando como seria o amor perfeito... Aquele em que o garoto está perdidamente apaixonado, é incrivelmente romântico, faz tudo para conquistar a mocinha e ainda é o exemplo de gentileza, encanta a todos.
E desse mundo das letras, chegou ao da literatura clássica. Começou por Senhora, de José de Alencar, o clássico modelo do romantismo brasileiro: um jovem casal se ama perdidamente, mas os anti-heróis os impedem de ficar juntos, assim, sofrem horrores até que se revelam apaixonados e, depois de muito sofrimento, ficam juntos para sempre. E outros vieram depois, nem vou nomeá-los, tantos que foram, acabaria o livro apenas relatando as leituras da sonhadora Anna. Mas é preciso narrar mais uma de suas leituras...
Gostava tanto dos livros que não se limitava a ler aqueles que os professores indicavam, ou que ela própria encontrava nas estantes da biblioteca em suas buscas frequentes, lia também os livros indicados à irmã, sob o pretexto de ajudá-la com seus trabalhos. Em uma dessas “ajudas” deparou-se com “A moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo. Aí o que era um sonho, tornou-se um desejo: encontraria um Augusto para viver um amor por toda a vida como o da jovem Carolina...
Desde então, o namorado que Anna esperava encontrar era alguém que pudesse ser como Augusto, o jovem que esperou anos por encontrar a doce amada cujo nome não sabia, mas de quem nunca esquecera, desde uma tarde brincando à beira mar...

Na época em que lera o romance, já tinha um namoradinho e, claro, contou-lhe sobre a linda história de amor de Carolina e Augusto, assim como houvera contado sobre outras lindas histórias apaixonadas que lera. Mas, para sua decepção, ouviu aquele jovem mancebo – só mesmo Anna usaria essa palavra em fins do século XX – dizer-lhe que o homem que Anna procurava existia apenas nos livros que ela lia, que na vida real tudo era diferente. Foi o bastante para Anna, ainda bastante jovem, decidir que aquele não era, certamente, a pessoa com que compartilharia sua vida. Deixou-o. E continuou sua busca, mas agora mais exigente! Chega de sapos! Deve haver um príncipe me esperando em algum lugar... 

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