quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Os príncipes existem (parte III)


 (O sonho)

Sabrina era o nome da irmã mais nova do pai de Anna. Tão mais nova, que era chamada pelos irmãos mais velhos de Nenê. Apelido que ela passou a detestar logo depois de completar doze anos. Como seria receber seus amigos em casa e permitir que eles ouvissem chamá-la de Nenê? Ela certamente se tornaria motivo de piada, afinal, se tem uma coisa que adolescente faz bem é piada dos amigos. Sabrina era tão brava que trataram logo de abandonar o apelido de Nenê, mas continuaram chamando-a de Nê, e esse não teve jeito. Quanto mais Sabrina brigava, mais se fixava o apelido, até que a menina desistiu de brigar. Mas nunca explicava a razão do apelido, dizia sempre que era coisa dos irmãos mais velhos e chatos que ela tinha.
Nê era ainda criança quando Anna, a sobrinha mais velha, nasceu. Elas chegaram a brincar de bonecas juntas. Nê passava longas horas na casa do irmão só para poder ficar com a menininha que ela cuidava como de uma boneca preciosa. Por isso, Anna tinha nessa tia uma espécie de irmã mais velha. E Nê gostava disso. Se ia a casa de amigos, Anna ia junto. Levava-a para passear, tomar sorvete, dava-lhe conselhos, lia para ela histórias lindas, mesmo antes de Anna conhecer as letras.
Os anos foram passando e o laço entre as duas só aumentava. Até que um dia Sabrina apareceu com um namorado. Em princípio, Anna odiou a ideia. Teve vontade de mandá-lo embora, dizer coisas feias para assustá-lo e “pegar” sua tia de volta. Mas era muito educada para isso. Não fez nada. Aliás, fez. Foi tão gentil com o rapaz, que ele passou a gostar da presença de Anna. E assim, mesmo com o namorado, Nê continuava levando Anna para alguns passeios.
Os anos se passaram, o namoro virou noivado, e marcaram a data do casamento. Anna tinha nessa época 14 anos e acompanhou a tia em todos os preparativos. Até na escolha do vestido, Anna estava lá, palpitando... Sabia qual seria a decoração da festa, o sabor e formato do bolo, as músicas da cerimônia e o destino da lua-de-mel.
Àquela época, lua-de-mel parecia, para Anna, a viagem perfeita, com a pessoa perfeita, para o lugar perfeito. O feliz desfecho para um lindo romance aos moldes de “A Moreninha”, embora ainda não conhecesse o livro. A maioria dos livros que lera, até então, da tia Nê, acabavam em um lindo casamento, com um festa maravilhosa, mas nunca citavam lua-de-mel. Contudo, para aquela menina sonhadora, se era o desfecho do casamento, tinha que ser perfeito!
Ficou tanto tempo pensando na viagem da tia, que acabou, certa noite, sonhando que estava viajando com a tia, e o tio, em sua lua-de-mel. Mas, não fora sozinha, tinha um acompanhante... Gabriel era o nome do “suposto” marido de Anna. Suposto porque Anna sequer tinha um namorado. Ainda que quisesse, o pai não permitiria...
Enfim, voltemos ao sonho. Parecia a viagem perfeita. O lugar era paradisíaco, com lindas praias e coqueiros à beira mar. E Gabriel era como um anjo... Lindo. Tinha olhos que inebriavam, um sorriso que dava vontade de beijar. Anna já tinha sido beijada, mas não gostou da experiência, achou aquilo muito molhado, uma língua que tentava entrar em sua boca, era muito estranho e nada saboroso. Foi decepcionante. Desistiu do garoto e do beijo. Mas o beijo do tal Gabriel era diferente, saboroso, delicado. Era, talvez, o beijo como Anna sonhava...
Acordou lembrando o sonho. Achou engraçado. Quem levaria outra pessoa para sua própria lua-de-mel? Que loucura! Só mesmo a cabecinha maluca daquela menina.
Mas algo a intrigava: quem era Gabriel??? Anna não conhecia ninguém com esse nome. Com exceção de um primo, mais novo e muito chato. Mas este ela conhecia muito bem e, com certeza, não era o de seu sonho. Não tinha os mesmo olhos, nem o mesmo sorriso. E Anna sabia que jamais viajaria com aquele primo, namorá-lo, então, nem no pior dos pesadelos. Então, quem seria aquele lindo jovem de seu sonho?
Contou o sonho apenas para a tia Nê. Era a única pessoa com sensibilidade suficiente para ouvi-la, sem julgá-la. A tia disse apenas que ela soubesse esperar.
- Gabriel é nome de anjo. Quem sabe o seu está por aí, a sua procura? Almas gêmeas se procuram até se encontrarem... Podem levar anos, talvez o nome seja outro, mas se for a sua metade, vai te encontrar, eu tenho certeza.
 Anna pensou naquele sonho por anos. Até que o abandonou. Nenhum anjo aparecera em sua vida. Apenas os sapos de que já falamos antes.
Cinco anos depois, caso esquecido, eis um Gabriel...
- Será possível? Pensava Anna já na cama. – Não. São apenas coincidências...
O problema é que Anna não acreditava em coincidências. Acreditava que sua história já estava escrita em uma espécie de “livro da vida”, o qual registrava tudo que aconteceria em sua vida desde seu nascimento até sua morte. Então, talvez, aquele sonho tivesse sido uma premonição... Não! Basta!
Mesmo não querendo mais fazer associações, Anna pensou no Gabriel real por muito tempo. Mas durante vários meses não o vira mais. O que teria acontecido?

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